Categoria: Basílica
25/12/2025 Por: Nayane Moreira - Jornalista
Desde as primeiras horas da manhã do dia 24 de dezembro, quem entrou na Basílica de Nossa Senhora das Dores já percebia que algo especial estava sendo preparado. A manjedoura, colocada ao lado direito do altar, antecipava o centro da celebração cristã do Natal: a memória do nascimento de Jesus, apresentado pelos cristãos como o Deus que escolheu partilhar a vida humana desde a infância, reconhecido na tradição bíblica por imagens simbólicas como o “Sol que vem do Oriente”.
Às 19h, em sintonia com comunidades cristãs católicas de diversas partes do mundo, uma grande quantidade de fiéis se reuniu na Casa da Mãe das Dores para participar da Missa da Noite de Natal, uma das celebrações mais significativas do calendário religioso. A celebração aconteceu com a presença da Comunidade Sacerdotal. A Missa Solene foi presidida pelo reitor da Basílica, Padre Cícero José, e teve um destaque especial: a participação das crianças, que ajudaram a conduzir momentos importantes da liturgia.
Entre elas, o menino Davi dos Anjos foi responsável por entoar a Kalenda de Natal, um antigo canto proclamado no início da celebração. A Kalenda situa o nascimento de Jesus dentro da história humana, mencionando acontecimentos e épocas para lembrar que, para a fé cristã, esse nascimento não é um mito distante, mas um fato que se insere no tempo e na vida das pessoas. É uma espécie de anúncio solene que prepara a assembleia para o mistério que será celebrado.
Outro momento marcante foi o salmo cantado por Sárvia, cuja voz infantil ecoou no templo trazendo a mensagem central da noite: “Hoje nasceu para nós o Salvador, que é Cristo, o Senhor”. O Evangelho proclamado na celebração recordou as circunstâncias simples do nascimento de Jesus e culminou no cântico de louvor entoado pelos anjos, tradicionalmente traduzido como um anúncio de paz e reconciliação para a humanidade.
Durante a homilia, Padre Cícero José refletiu sobre o sentido do Natal a partir da simplicidade do presépio. Ele destacou que, segundo a tradição cristã, Jesus nasce fora dos ambientes de poder e riqueza, em condições humildes, o que torna sua mensagem acessível a todos, especialmente aos mais pobres, migrantes e excluídos. A escolha de uma manjedoura, explicou, revela uma lógica diferente daquela baseada em status ou privilégios para se aproximar do Menino, é preciso descer, curvar-se, tornar-se pequeno.
O sacerdote também recordou que o tempo do Advento, vivido nas semanas anteriores ao Natal, é um convite à mudança interior. Para os cristãos, celebrar o Natal não se resume a ritos ou símbolos externos, mas implica rever atitudes, abandonar a indiferença e cultivar valores como solidariedade, justiça e fraternidade. A homilia destacou ainda que a figura dos pastores, os primeiros a receberem a notícia do nascimento; representa aqueles que estão à margem da sociedade, reforçando a ideia de que a mensagem do Natal é dirigida a todos.
Segundo o sacerdote, o desafio permanece atual: “muitas pessoas celebram o Natal, mas acabam se distanciando do seu significado essencial, substituindo a simplicidade do presépio por excessos que pouco dialogam com a proposta original da festa”.
Um gesto simbólico que encerrou a celebração
Ao final da Missa, um dos momentos mais aguardados foi a procissão com a imagem do Menino Jesus. Conduzido pelo Padre Cícero José até o presépio montado na Capela do Encontro, o gesto simbolizou a acolhida concreta do nascimento celebrado ao longo da liturgia.
Reforçando novamente o protagonismo das crianças, a pequena Ana Clara recebeu a imagem das mãos do sacerdote e a levou até a manjedoura, enquanto entoava o cântico “Noite Feliz”, acompanhada por toda a assembleia. Em seguida, o presépio foi solenemente abençoado.
Entre cantos e orações, a comunidade foi convidada à contemplação silenciosa do mistério central do Natal cristão: um Deus que se apresenta pequeno, frágil e próximo, oferecendo esperança e sentido à Noite Santa. O presépio permanecerá aberto à visitação até o dia 2 de fevereiro, como um sinal simbólico para aqueles que desejarem refletir e rezar diante dele.
O Natal e a história de Juazeiro do Norte
Em Juazeiro do Norte, a celebração do Natal carrega também um forte significado histórico. A véspera natalina marca um acontecimento decisivo para a formação do município. Há 154 anos, um jovem sacerdote oriundo do Crato, Padre Cícero Romão Batista, visitou a então Vila Tabuleiro Grande a convite de seu amigo Semeão Correia de Macêdo. O objetivo era simples, mas marcante: celebrar o Natal com a pequena comunidade local por meio da tradicional Missa do Galo, realizada na modesta capela dedicada a Nossa Senhora das Dores.
A partir daquele momento, a trajetória do Padre Cícero passou a se confundir com a história do lugar. Seu ministério, fundamentado na oração, no trabalho e na orientação espiritual do povo, contribuiu para o crescimento humano, social e religioso da localidade. A antiga vila transformou-se em Juazeiro do Norte, hoje reconhecida como um dos maiores centros de peregrinação do Nordeste.
A pequena capela onde foi celebrada a Missa de Natal em 1871 acompanhou esse crescimento e tornou-se a atual Basílica Menor de Nossa Senhora das Dores. O espaço segue cumprindo a missão que o próprio Padre Cícero vislumbrava: acolher pessoas vindas de diferentes lugares, que buscam amparo espiritual sob a proteção de Nossa Senhora.
Assim, em Juazeiro do Norte, o Natal não é apenas uma data no calendário religioso, mas um marco que une fé, história e identidade cultural, renovado a cada ano na celebração que recorda o nascimento daquele que, para os cristãos, é sinal de esperança para toda a humanidade.
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