Categoria: Artigos
27/06/2026 Por: Dom Magnus Henrique Lopes, OFMCap
Há dias em que a Igreja parece respirar mais profundamente. Hoje é um desses dias. O céu e a terra parecem aproximar-se em silenciosa comunhão, porque o Senhor continua realizando uma das obras mais belas do seu amor: escolhe homens entre os homens para configurá-los ao seu Filho, Bom Pastor, e enviá-los ao mundo como sacramentos vivos da sua presença. Não estamos reunidos apenas para assistir a uma cerimônia solene. Estamos diante de um mistério que atravessa os séculos: o mesmo Cristo que chamou os Apóstolos às margens do lago continua chamando, consagrando e enviando. Dentro de alguns instantes, a Diocese contemplará, com gratidão e reverência, esse prodígio da graça na ordenação destes cinco novos sacerdotes.
A liturgia da Palavra impulsiona o nosso olhar na direção desse mistério. Deus, através do profeta Ezequiel, proclama com ternura e firmeza: "Eu mesmo vou procurar as minhas ovelhas". É o próprio Senhor que sai ao encontro dos dispersos, que busca os perdidos, que cura os feridos e fortalece os cansados. Não é um Deus distante. É o Pastor que conhece suas ovelhas pelo nome e que jamais se conforma com a perda de qualquer delas.
Esse mesmo coração de Pastor, esse eterno e abnegado amor, manifesta a sua profundidade insondável ao revelar-se antes da fundação do mundo; antes de qualquer mérito ou resposta humana, Deus já nos havia escolhido em Cristo. A vocação nasce aí: não de um projeto humano, mas de um olhar eterno de Deus que chama, consagra e envia.
O Evangelho que acabamos de ouvir nos leva ao ápice deste mistério. Do lado aberto de Cristo crucificado jorram sangue e água. Do coração trespassado do Bom Pastor nasce a Igreja. Dali brotam os sacramentos, a vida nova, a misericórdia que salva. Dali nasce também todo ministério na Igreja. Nenhum sacerdote nasce de si mesmo; todo sacerdote nasce do coração aberto de Cristo.
As três leituras nos mostram uma única verdade: Deus não espera que as ovelhas cansadas encontrem o caminho sozinhas. Ele vem ao nosso encontro – e Ele vem "traspassado" para nos lavar no seu sangue.
Meus caros filhos, André, Francisco, Gustavo, Jeferson e José, ao vos aproximardes deste altar, não estais sendo chamados para vos tornardes meros administradores do sagrado nem simples promotores de nobres ideais humanos. A graça que hoje vos alcança é infinitamente maior: sois enviados para ser, no coração do mundo contemporâneo, a presença viva do Bom Pastor, cujo coração permanece aberto para acolher, curar e salvar.
Sede um olhar que reconhece a dor escondida, uma palavra que consola sem julgar, uma mão estendida que levanta os caídos e um testemunho da misericórdia que brota incessantemente do lado aberto de Cristo. Em tempos marcados pela indiferença, pela solidão, pela desorientação e pela perda de sentido, vossa missão será tornar visível a ternura de Deus, para que cada homem e cada mulher que vos encontrar possa experimentar, através de vós, a proximidade daquele que disse: "Eu sou o bom pastor; conheço as minhas ovelhas e as minhas ovelhas me conhecem" (Jo 10,14).
A página do Evangelho que vocês escolheram é forte e desconcertante. Não narra milagres, nem discursos. Narra uma ferida. Uma lança que rompe a carne já morta do Verbo Encarnado. A tradição da Igreja viu neste lado aberto o nascimento dos sacramentos: o Sangue da Eucaristia e a Água do Batismo. Não se trata apenas de uma imagem poética, mas de uma verdade teológica profunda: é do Coração de Cristo que a Igreja recebe vida e missão.
O ministério de vocês tem sua origem neste mistério que hoje contemplamos. A partir de agora, vocês serão homens do lado aberto de Cristo, homens gerados pelo seu amor crucificado e enviados para torná-lo presente no mundo. Homens também marcados pelas lanças da vida.
Permanecei sempre junto desta fonte. Que vossas palavras, vossos gestos e todo o vosso ministério encontrem aí a sua origem e a sua força. Pois somente quem vive do Coração de Cristo pode levar aos outros a vida que não passa. Todavia, essa ferida de amor não é para ser contemplada numa redoma de vidro. É a partir dela que ressoa a profecia de Ezequiel: "Eu mesmo apascentarei as minhas ovelhas". Percebei a delicadeza divina: Deus não terceiriza o cuidado, não procrastina. Ele mesmo vem. E Ele vem através de vós. Através do nosso ministério, quando o vivemos na fidelidade.
O profeta fala de um dia "de nuvens densas" (Ez 34,12). Esta é uma descrição precisa do nosso tempo. Uma névoa espessa de solidão cobre a nossa sociedade individualista. Uma névoa densa de falta de sentido sufoca os jovens. As ovelhas não estão apenas "dispersas", como diz a leitura; elas estão machucadas, ansiosas, cansadas, fatigadas e viciadas em mil estímulos, mas famintas de um amor que não acaba. Famintas do amor de Deus.
Não podeis ser pastores de "balcão", esperando que as ovelhas venham até a secretaria paroquial. A "saída" missionária que o Papa Francisco tanto insistiu nasce aqui: é a saída do Bom Pastor que deixa as noventa e nove para buscar a perdida. O vosso ministério será tecido no corpo a corpo do acolhimento, mesmo diante do cansaço e da fragilidade humana. "Enfaixar a quebrada" significa curar as feridas dos inúmeros indiferentismos que encontrareis pelos caminhos eclesiais.
O maior desafio pastoral do mundo de hoje não é a falta de padres, de recursos ou de fiéis praticantes. É a orfandade espiritual. As pessoas vivem como se fossem órfãs, frutos do acaso, condenadas a si mesmas, sem um Pai. O rosto do mundo moderno é tenso, porque se esqueceu de que é filho amado. Nosso desafio é fazer com que todos experimentem o anúncio Kerigmático: Deus vos ama, Cristo vos salvou, o Espírito vos renova.
A lança que abriu o lado de Cristo continua, de certo modo, atravessando a história. Ela aparece nas feridas do nosso tempo, nas dores das famílias, na solidão dos idosos, nas dúvidas dos jovens, nas angústias de tantos homens e mulheres que perderam o sentido da vida. É para esse mundo que sois enviados. Não para um mundo ideal, mas para o mundo real, com as suas contradições, os seus sofrimentos e as suas esperanças.
Hoje, dentro de alguns instantes, a Igreja imporá as mãos sobre vós e invocará o Espírito Santo. A partir deste altar, começará uma nova etapa da vossa vida. Jamais esqueçais este dia. Quando vierem as alegrias da missão, agradecei ao Senhor. Quando chegarem as dificuldades, voltai espiritualmente a este momento. Recordai-vos de quem vos chamou. Recordai-vos de que fostes procurados pelo Pastor. Recordai-vos de que fostes escolhidos antes da fundação do mundo. Recordai-vos de que nascestes para o sacerdócio junto ao lado aberto de Cristo.
Ide ao encontro do povo que vos será confiado. Procurai os que estão longe. Acolhei os feridos. Fortalecei os fracos. Anunciai o Evangelho sem medo e sem desânimo. O mundo tem necessidade de sacerdotes que sejam homens de Deus, homens de oração, homens de misericórdia, homens que tenham o coração configurado ao Coração do Bom Pastor.
Sede também homens da Eucaristia. O altar será um dos lugares mais importantes da vossa existência. Ali aprendereis, todos os dias, que o sacerdote não pertence a si mesmo. Cada celebração vos recordará que a vida sacerdotal só encontra sentido quando se torna oferta, entrega e dom. Celebrai os santos mistérios com fé, reverência e amor, conscientes de que o povo de Deus tem o direito de encontrar em vós homens profundamente unidos ao mistério que celebram.
Conservai sempre uma profunda comunhão com o bispo e com vossos irmãos presbíteros. Não sereis ordenados para uma missão isolada ou individual. Entrareis hoje em um único presbitério, chamado a testemunhar a unidade da Igreja. Cuidai da fraternidade sacerdotal. Sustentai-vos mutuamente. Rezai uns pelos outros. Compartilhai alegrias, desafios e esperanças. A comunhão entre os ministros é uma das mais belas formas de evangelização.
E permiti-me, neste dia tão significativo, fazer-vos uma recomendação especial: nunca deixeis que a atividade pastoral ocupe o lugar da vida espiritual. Haverá muitas demandas, muitos compromissos e muitas urgências. Porém, se um dia faltar a oração e a comunhão com o presbitério da Diocese e enfraquecer a intimidade com Cristo, o ministério perderá sua fonte de vida. Antes de serdes homens das tarefas, sede homens de Deus. Antes de serdes administradores, sede discípulos. Antes de serdes líderes, sede amigos do Senhor.
Daqui a alguns instantes, queridos filhos, vossos nomes serão pronunciados pela última vez como diáconos. Quando vos levantardes após a oração consecratória, já não sereis os mesmos. A Igreja vos reconhecerá sacerdotes para sempre. Levareis nas mãos o Corpo de Cristo; pronunciareis palavras que nenhum outro homem pode pronunciar; perdoareis pecados em seu nome; consolareis os aflitos; ungireis os enfermos; conduzireis o povo de Deus pelas alegrias e pelas noites da existência até a casa do Pai.
Haverá dias luminosos e haverá noites silenciosas. Conhecereis a alegria das comunidades, mas também o peso da cruz, da incompreensão e da solidão. Quando essas horas chegarem, não procureis primeiro as respostas. Voltai ao Coração aberto de Cristo. Foi dele que nascestes para o sacerdócio; será nele que encontrareis sempre descanso, força e esperança. Um sacerdote nunca perde o caminho quando permanece junto da fonte onde nasceu sua vocação.
Que a Virgem Maria, Mãe da Penha, vos ensine a guardar Cristo no coração antes de levá-lo ao altar. Que São José vos ensine a fidelidade silenciosa. Que os santos presbíteros que edificaram a história de nossa Diocese intercedam por vós. E que, um dia, depois de haverdes consumido generosamente a vida pelo Evangelho, possais ouvir dos lábios do Supremo Pastor aquelas palavras pelas quais vale a pena gastar toda a existência: "Muito bem, servo bom e fiel; entra na alegria do teu Senhor". Amém.
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