Categoria: Artigos
25/06/2026 Por: CNBB
Dentre os muitos aspectos das festividades do mês de junho, um que seguramente ocupa o centro da tradição popular é o fogo incandescente na noite de São João. A tradicional “Fogueira de São João”, acendida em meio aos terreiros Brasil afora, aquece não só os transeuntes que passam em seu entorno, como também o coração daqueles que, estimulados pelas canções ao toque das sanfonas e de outros tantos instrumentos, fazem ressoar uníssonos a beleza do canto do sertão.
Todavia, mais que uma ocasião de festa em torno às chamas, as fogueiras acendidas têm suas origens para além dos festivais a modas soltas. A fogueira de São João é, antes de tudo, um dos símbolos mais potentes das festas juninas, carregando significados que unem a fé cristã a antigas tradições. O elemento fogo atua como uma fonte entre o sagrado, a natureza em seus ciclos e a própria vida comunitária. Para além disto, o fogo carrega um chamado mais profundo que por vezes é quase esquecido, haja vista o propósito cristão que deve primar como a essência do distinto festejo.
Distraídos com a singeleza do João menino que tem junto a si o dócil cordeiro e impulsionados pelo calor da emoção das grandes festas, muitos esquecem do sinal que a vida de João Batista representa na Sagrada Tradição, desde sua natividade, solenemente celebrada, ao seu martírio, cuja dor repercute na dor de tantos outros massacrados pelo poder tirano. E como dileto sinal, apregoado com veemência pelo Precursor, o fogo assume renovado sentido incandescendo não apenas os olhos do corpo, mas também os do espírito, aquecendo não apenas os corpos enrijecidos pelo frio da roça, mas também o coração espiritual do fiel e da comunidade que comemora.
“Eu vos batizo com água, mas virá aquele que é mais forte do que eu […] Ele vos batizará com o Espírito Santo e com fogo” (Lc 3,16). Nessa afirmação, o Precursor não apenas define os limites da própria missão, mas abre caminho para a novidade absoluta de Cristo. A água de João purifica o exterior e prepara o arrependimento; o fogo de Jesus penetra as entranhas, consome o pecado e transforma a própria natureza humana. Justamente aí a piedade popular cristã encontra a forma de perpetuar essa transição por meio do acender da fogueira de São João.
Tal fogueira se desvela como uma metáfora: ela é luz que brilha na escuridão da noite, mas não possui luz própria para se sobrepor ao brilho abundante da luz do dia; ela se consome para apontar o caminho, enquanto anuncia o Sol Nascente que ao fim da noite fria desponta majestoso, como o belo esposo do quarto nupcial, como o valente guerreiro triunfante em seu caminho, traduzindo assim, em elementos simples, a mensagem e o mensageiro, o Cristo anunciado e aquele que com a vida o anunciara, selando com o sangue o romper de uma aurora que até hoje não vê seu fim, antes a perpetuar como o dia da sempiterna e feliz ressureição.
De tal modo, João Batista distingue-se como a última labareda da Antiga Aliança, o fogo profético que no auge de toda profecia prepara os corações, ardendo, consumindo, mas sem jamais extinguir, antes a fortificar o que o Pecado viera a oprimir. Tais mistérios torne, pois, convictos, os cristãos do tempo presente, para que o batismo de fogo predito por João e concretizado com Cristo em Pentecostes, esteja perenemente a aquecer os filhos e filhas de Deus nas gélidas noites de sua infeliz preponderância, rompendo a partir daí, pela luz divina, as trevas de todo erro e engano.
Que ao redor das fogueiras acendidas neste nosso Brasil seja partilhada não somente a alegria que revigora a dura lida, mas sobretudo a Esperança que, fruto de tão importante Batismo, regenera e revigora pelo fogo de Cristo a chama acendida não por homens, nem com lenhas de quaisquer campos, mas por Cristo, que do madeiro da Cruz segue sedento por vibrar para sempre em nossos corações.
Dom Anuar Battisti
Arcebispo Emérito de Maringá (PR)
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