Verdade e beleza

Verdade e beleza

Categoria: Artigos

14/07/2026 Por: CNBB


 

Existe um nexo entre verdade e beleza? A Filosofia Grega já relacionava a tríade: beleza, verdade e bondade. Essa concepção levou pensadores a buscar a harmonia estética, o conhecimento verdadeiro e a virtude moral como via para se chegar à boa vida. Esse pensamento foi assim condensado pelo Papa Leão XIV: “O desejo do bem, da beleza, da verdade está enraizado no ‘DNA da humanidade’”. (Discurso, 07/06/2026). Para São Tomás de Aquino, todo ser é bom, verdadeiro e belo na medida em que participa do Ser em si, que é Deus. Esses três transcendentais do ser se atraem na completude do ser. 

Santo Agostinho ensinava que não amamos senão o que é belo (cf. De musica, VI, 13, 38; Confessiones, IV, 13, 20). Mais recentemente, o Papa Francisco nos falou sobre a Via pulchritudinis (a via da beleza) como caminho para recuperar a estima da beleza e poder chegar ao coração do homem, fazendo resplandecer nele a verdade e a bondade. E advertiu para o risco de fomentar “um relativismo estético” que pode obscurecer o vínculo indivisível entre verdade, bondade e beleza (Evangelii gaudium, 167). Numa cultura em que se estetiza tudo, o risco de uma dicotomia da beleza com a verdade é considerável. 

Francisco alertou os artistas para que estivessem atentos a “escapar ao poder sugestivo daquela suposta beleza artificial e superficial, que hoje se difunde, e que é muitas vezes cúmplice dos mecanismos econômicos geradores de desigualdades. Aquela beleza não atrai, porque é uma beleza que nasce morta. Não há vida ali, não atrai. É uma falsa beleza, cosmética, uma maquiagem que esconde em vez de revelar” (Discurso aos Artistas, 23/06/2023). A cultura do esteticismo, com o auxílio da tecnologia, cria essas belezas cosméticas, desvinculadas da dura realidade. 

O grande escritor russo F. Dostoiévski abordou essa temática em sua memorável obra “O Idiota”. Ali nos deparamos com um diálogo inesquecível. Disse Ippolit: “Príncipe, é verdade que o senhor disse uma vez que a ‘beleza’ salvará o mundo? Senhores – gritou alto para todos –, o príncipe afirma que a beleza salvará o mundo! (…) Qual é a beleza que vai salvar o mundo?” (Ed. Presença, p. 396). O príncipe a que se refere Ippolit é Lev Nikoláevitch Míchkin, protagonista da obra, que encarna a figura de O Idiota. 

O príncipe, tal qual Jesus diante da pergunta de Pilatos – “o que é a verdade?” (Jo 18,38) –, nada responde a Ippolit sobre que beleza salvará o mundo. Ele vai ao encontro de um jovem de 18 anos que agonizava. Ali permanece, cheio de compaixão e amor, até ele morrer. Com isso, quis dizer que a beleza é aquilo que nos conduz ao amor solidário diante da dor do outro, que nos interpela. O mundo será salvo hoje e sempre enquanto houver essa atitude: o amor solidário, característica mais profunda do ser humano. Páginas à frente segue a descrição do impacto causado pelo quadro do “Cristo Morto”, de Hans Hosbein (1521). 

De fato, Dostoiévski havia contemplado essa obra de arte quando visitara Basileia, na Suíça, e passa a descrever o quadro. “A pintura não era grande coisa em termos artísticos, mas mergulhou-me numa estranha inquietação. Nesse quadro está pintado um Cristo que acabaram de tirar da cruz. Parece que os pintores têm o hábito de representar Cristo, tanto crucificado como tirado da cruz, sempre com um toque de beleza no rosto; mesmo nos momentos de sofrimento mais terrível, acham que devem conservar-lhe a beleza”. O relato continua, e vem a afirmação de que naquela pintura não havia o mínimo de beleza. E segue a descrição dos sinais da crueldade no corpo representado pelo artista. 

E continua a narrativa da obra: “É estranho que, quando olhamos para este cadáver de homem torturado, surge uma pergunta especial e curiosa: se um cadáver assim (…) foi visto por todos os seus discípulos, pelos principais futuros apóstolos dele, pelas mulheres que tinham fé nele e o adoravam, como foi possível que acreditassem, à vista deste cadáver, que este mártir ia ressuscitar? Com este quadro parece estar expressa precisamente a noção de uma força obscura, descarada e eternamente sem sentido a que tudo fica submisso”. A pintura em questão trata-se de uma espécie de antítese da beleza: a beleza de quem foi fiel até o fim, sofreu os tormentos mais cruéis por amor à humanidade. É precisamente esta a beleza que salva o mundo. 

A verdadeira beleza que salva o mundo está vinculada ao senso ético. Não se trata de um esteticismo puro. A sensibilidade artística e profundamente humana consegue perceber uma beleza no corpo torturado “de uma pessoa que sofreu infinitamente, ainda antes da crucificação, feridas, torturas, espancamentos por parte dos guardas e do povo (…). Também é verdade que há ainda muita vida, muito calor, no rosto de um homem que acabaram de tirar da cruz: o cadáver ainda não teve tempo de tornar-se rígido, no rosto do morto ainda transparece o sofrimento, como que sentido no próprio instante (…)” (id., p. 421). 

Não se pode tolerar a dicotomia entre o ético, o verdadeiro e o bom. A “beleza cosmética”, desvinculada da verdade e da bondade fica fadada à inautenticidade. Ela é plástica, artificial, fora da realidade. A beleza do Cristo de Hosbein não condiz com a beleza de um esteticismo convencional, mas está vinculada à verdade e à bondade. É essa beleza que somos chamados a cultivar nos espaços de nossa existência: Uma beleza que vai ao encontro do outro que nos interpela, assim como Deus se apequenou, humilhou-se, “quenotizou-se” para assumir em tudo a condição humana (cf. Filp 2,5-11) e nos apontar o horizonte da vocação humana, a verdadeira humanização do ser humano (cf. GS, 22). É essa beleza que salva o mundo. 

 

 

Dom Geraldo dos Reis Maia
Bispo de Araçuaí (MG)

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