Categoria: Artigos
11/08/2026 Por: CNBB
Uma grande alegria nos alcança neste tempo do ano: chegamos à trigésima edição da Semana Nacional da Família, celebração que, ano após ano, renova em nós o compromisso com aquele projeto que Deus mesmo desenhou desde o princípio para a vida humana. Entre os dias 9 e 15 de agosto, dioceses, paróquias, comunidades e, sobretudo, os lares de todo o Brasil se voltam para um só tema, um só chamado, uma só festa do coração: a família.
A Comissão Nacional da Pastoral Familiar, vinculada à Comissão Episcopal para a Vida e a Família da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, propõe para esta trigésima edição o tema “Família, torna-te aquilo que és”, acompanhado do lema bíblico “O amor jamais acabará”, tirado da Primeira Carta de São Paulo aos Coríntios – 1Co 13,8. Poucas frases da Escritura resumem com tanta beleza o que somos chamados a viver dentro de casa. O amor não é um sentimento passageiro, não é uma emoção que vai e vem conforme o humor do dia. O amor, quando é verdadeiro, permanece. Atravessa as dificuldades, sobrevive ao cansaço, resiste às crises e se renova a cada manhã.
Um tema que vem de longe e vai muito além do calendário
Semana Nacional da Família é sempre tempo de valorizar a família. Não é por acaso que a Igreja escolheu este tema para 2026. Vivemos um ano de profunda significância para a reflexão sobre a família no Magistério da Igreja. Completam-se dez anos da publicação da Exortação Apostólica Amoris Laetitia, do Papa Francisco, assinada em 19 de março de 2016, documento que trouxe um olhar misericordioso e realista sobre os desafios que as famílias enfrentam hoje. E celebramos também os quarenta e cinco anos da Exortação Apostólica Familiaris Consortio, de São João Paulo II, publicada em 22 de novembro de 1981, texto que até hoje sustenta boa parte da pastoral familiar em todo o mundo.
Esses dois documentos, distantes no tempo mas unidos na mesma convicção, nos ensinam algo essencial: a família não é uma instituição que precisa apenas ser defendida, mas sobretudo acompanhada, cuidada e evangelizada. E é exatamente isso que a expressão “torna-te aquilo que és” nos convida a fazer. A família já recebeu, no sacramento do matrimônio e no dom da vida, uma identidade e uma vocação. A tarefa de cada dia é crescer até se tornar plenamente aquilo que, por graça, já é. O Papa Leão XIV convocou para em outubro próximo, os presidentes das conferências episcopais e os patriarcas do oriente para refletir sobre a recepção destes dois documentos no mundo hodierno.
O amor que não acaba, mesmo quando tudo parece difícil: Sei bem, e vivo isso de perto aqui no Rio de Janeiro, que falar de família hoje não é falar de um ideal distante da realidade. É falar de mães que trabalham dobrado para sustentar os filhos, de pais que enfrentam a violência das ruas com o coração apertado, de avós que assumem a criação dos netos, de jovens que buscam, muitas vezes sem saber nomear, um lugar de acolhida e de sentido. Nossa cidade, com toda a sua beleza e todos os seus contrastes, é também um retrato do Brasil e do mundo: lares fortalecidos pela fé convivendo com famílias fragilizadas pela distância, pelo silêncio, pelas pressas do cotidiano.
É justamente aí que a Palavra de Deus se faz mais necessária. Quando São Paulo escreve aos Coríntios que “o amor jamais acabará”, ele não está descrevendo uma família perfeita e sem provações. Está descrevendo a força que sustenta qualquer família disposta a perseverar. O mesmo Apóstolo, poucos versículos antes, já havia dito que o amor é paciente, é prestativo, não guarda rancor, tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. Este é o retrato que a Semana Nacional da Família nos convida a contemplar e, mais do que contemplar, a viver dentro de casa.
A família como pequena igreja dentro de casa: Gosto sempre de lembrar que a família é chamada de igreja doméstica. É na mesa da cozinha, na hora do jantar, na oração da noite, no perdão pedido depois de uma discussão, que a fé se transmite de verdade. Não é primeiramente nos grandes discursos, mas nos pequenos gestos repetidos com fidelidade. Assim como os monges aprendem, na vida contemplativa, que a santidade se constrói na repetição humilde de cada dia, também a família se santifica não em momentos extraordinários, mas na paciência de todos os dias.
Recordo aqui também meu lema episcopal, “Ut Omnes Unum Sint”, “para que todos sejam um”, palavras que Jesus dirige ao Pai no Evangelho de São João – Jo 17,21. A unidade que pedimos para a Igreja e para o mundo começa exatamente dentro dos lares. Uma família unida, mesmo com suas limitações e imperfeições, se torna sinal visível daquela unidade maior que Deus sonha para toda a humanidade.
O convite à missão dentro e a partir de casa: A trigésima edição da Semana Nacional da Família não pode ser vivida apenas como um momento de reflexão fechada em si mesma. Ela é, antes de tudo, um convite à ação. Cada família é chamada a se tornar, na expressão do próprio tema, aquilo que já é: comunidade de amor, escola de virtudes, primeiro espaço de evangelização. E toda família que vive isso se transforma automaticamente em missionária, mesmo sem sair de casa, porque o testemunho de um amor fiel já é, por si só, um anúncio silencioso do Evangelho para o mundo à sua volta.
Convido as paróquias e comunidades de nossa Arquidiocese, e de todo o Brasil, a aproveitarem esta semana para retomar a Pastoral Familiar com renovado entusiasmo. Que sejam promovidos encontros de casais, momentos de escuta para os jovens, espaços de acolhida para famílias que atravessam separações ou lutos, e sobretudo momentos de oração em conjunto. A hora da família, tão bem lembrada pela própria CNBB, pode ser um momento diário de oração compartilhada, capaz de mudar profundamente o clima de um lar.
Um horizonte de esperança para todas as famílias: Termino estas palavras com o mesmo entusiasmo com que as comecei. A Igreja não celebra a família como quem celebra uma instituição perfeita, mas como quem celebra um dom que precisa ser continuamente cultivado. Cada família que atravessa dificuldades e não desiste, cada casal que se reconcilia depois de uma crise, cada pai ou mãe solo que segue firme na educação dos filhos, cada jovem que decide, com coragem, formar um lar fundado na fé, todos eles são testemunhas vivas de que o amor, de fato, jamais acabará.
Que esta trigésima Semana Nacional da Família seja para todos nós um tempo de graça, de conversão e de renovada esperança. Que Nossa Senhora, Mãe da Sagrada Família, interceda por cada lar do nosso país, e que o Senhor, que habita esta e todas as cidades, continue derramando sua bênção sobre pais, mães, filhos, avós e todos aqueles que, de alguma forma, fazem parte da grande família de Deus. Que todos sejam um, começando pela mesa de casa.
Cardeal Orani João Tempesta
Arcebispo do Rio de Janeiro (RJ)
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