Transição Para Um Novo Mundo

Transição Para Um Novo Mundo

Categoria: Artigos

11/07/2020 Por: Padre Elias - Vigário Paroquial de Nossa Senhora de Fátima - Crato


A exemplo das estações do ano, que se sucedem de maneira inevitável, as civilizações também atravessam períodos de crescimento e de declínio.

E a pandemia que ora vivenciamos, leva-nos a acreditar que as sociedades industriais do mundo contemporâneo, deixaram para trás a primavera e o verão do crescimento e, agora, acabam de entrar, definitivamente, no outono e inverno do declínio.

E os sinais que evidenciam essa crise civilizacional são diversos. 
Problemas inesperados aparecem por todos os lados. 
As economias, cada dia mais, mergulhadas em dívidas e estagnação e, ao mesmo tempo, a sociedade extensivamente burocratizada perde sua resistência, tornando-se mais e mais vulnerável ao colapso.
Perde-se a fé na integridade básica das pessoas e instituições e a confiança de que os líderes poderão resolver os problemas, diminui a passos largos.

Alguns indivíduos procuram representação em grupos de interesse, numa tentativa de assegurar seu próprio bem-estar, em detrimento da sociedade mais ampla. 
Os líderes são mais tolerados do que propriamente apoiados.
As pessoas sentem-se afastadas de sua liderança e impotentes para realizar mudanças fundamentais.
Este é o "inverno" do crescimento mundial!

Em resumo, a menos que mudanças radicais sejam empreendidas, urgentemente, em nossa maneira de viver, de nos relacionar e de consumir, teremos um mundo fadado à destruição, ao sofrimento, ao conflito e ao desespero.

Portanto, o que importa, agora, será reagir criativamente para encontrar um novo início, um novo sentido, um novo marco regulatório da civilização; aquilo que muitos chamam de "um novo normal".

É chegado o tempo de se buscar novas abordagens para desafios nacionais e globais, em vez de redobrar esforços obedientes aos modelos antigos, relacionados à normalidade vivida antes do vírus.

Essa não será uma tarefa simples ou um problema de fácil resolução. 
Até porque, se de um lado, a visão tradicional de mundo já não mais faz sentido, de outro, nenhuma alternativa viável e consistente foi construída e, menos ainda, posta em prática.

Podemos ser comparados a adolescentes que se defrontam com o fato irreversível do seu crescimento e com a necessidade de assumir as difíceis responsabilidades da vida adulta. 
Somos confrontados pelo desafio de superar a nossa adolescência como civilização, passando para um novo estágio de maturidade.

Contudo, é nossa responsabilidade restabelecer o relacionamento com o mundo, de maneira a assegurar a possibilidade de construção de um futuro sustentável e satisfatório.
Dimensões inteiramente novas de oportunidade humana esperam por nós, se enfrentarmos o desafio de viver de modo mais consciente, coerente e simples.

Todavia, uma civilização revitalizada e baseada num modo de vida mais consciente e adaptado às exigências do momento, não vai surgir de uma hora para outra, por livre e espontânea geração ou por decorrência de uma simples mudança de tempo.

É muito provável que o desenvolvimento desse novo paradigma, em meio à turbulência e desordem que caracterizam o colapso da civilização atual, seja um processo bastante prolongado, confuso e ambíguo, de aprendizado social.

Não podemos antever, de forma alguma, uma solução rápida ou fácil para as complexas condições desse tempo presente de decadência civilizacional.

Creio que, somente quando as pessoas tiverem abandonado a esperança de que a era dourada do crescimento, do esbanjamento e das facilidades, possa de alguma forma ser revivida, é que iremos nos aventurar, coletivamente, a prosseguir em nosso novo caminho.

Temos de aprender a viver num plano intermediário entre os extremos da pobreza e do excesso, visto que, em ambas as situações, ficará comprometida a nossa capacidade de realizar os nossos potenciais.

Isto é, quer estejamos totalmente absorvidos na luta pela subsistência ou, ao contrário, totalmente absorvidos na luta para acumular bens, nossa capacidade de participar e usufruir da vida será prejudicada.

O equilíbrio se manifesta quando temos o suficiente: nem excesso nem carência!
E para encontrar esse equilíbrio em nossa vida diária, é preciso que compreendamos a diferença entre nossas "necessidades reais" e nossas "vontades subjetivas". 

Necessárias são aquelas coisas essenciais à nossa sobrevivência e crescimento. 
Vontades são os bens materiais supérfluos que gratificam, tão somente, os nossos desejos psicológicos.
 
Apenas quando conseguirmos distinguir claramente entre o que precisamos e o que queremos, poderemos começar a reduzir os excessos e encontrar o meio-termo justo entre esses dois extremos.

Nesse sentido, o nosso maior desafio é nos mostrarmos à altura da situação e começarmos com seriedade o processo de reconstrução e revitalização do nosso planeta, já demasiado enfraquecido e quase totalmente falido.

Podemos até, como sempre fizemos, continuar esperando pelos outros, mas, uma das mensagens fundamentais do tempo presente, é que não há mais ninguém. Você é essa pessoa. Nós somos essa pessoa.
Somos nós que, um depois do outro, devemos assumir a responsabilidade por nossas vidas e pela superação deste momento, construindo um futuro sustentável para o planeta.

E, quaisquer que sejam as diferenças entre nós, em todos os níveis, o fato é que somos todos participantes deste ritual histórico de passagem.

Nesse sentido, as oportunidades de uma ação significativa estão por toda parte: os alimentos que comemos, o trabalho que realizamos, os meios de transporte que utilizamos, o modo pelo qual nos relacionamos com as pessoas, as roupas que usamos, os conhecimentos que adquirimos, as causas humanitárias que apoiamos, a espiritualidade que cultivamos, o nível de atenção que dedicamos a cada momento, e assim por diante.

A lista é interminável, uma vez que a matéria prima da transformação social é idêntica àquela com a qual a nossa vida diária é construída.

Sendo assim, nada está faltando. Nada mais é necessário, além daquilo que já temos.
Não precisamos de tecnologias diferentes e mais avançadas. Não necessitamos de lideranças heróicas, maiores do que o próprio homem.
Nossa única necessidade é optar, como indivíduos, por um futuro revitalizante e, depois, agir em comunhão com os outros, para fazê-lo acontecer.

É bem verdade que, diante da grandiosidade do desafio que se nos apresenta, tendemos a pensar que somos fracos, indefesos e impotentes.
Contudo, na realidade, somente nós, trabalhando em cooperação e comunhão uns com os outros, temos o poder de transformar a situação atual.
Longe de estarmos indefesos, somos a única fonte da qual pode emergir a necessária criatividade, compaixão e determinação.

O desafio está lançado e já chegou até nós.
O outono do desenvolvimento econômico e social exacerbado e desigual, já se transformou em inverno.

Eis que é chegado o tempo de começarmos o próximo estágio de nossa jornada.
A era da adaptação criativa começou!
Temos muito trabalho pela frente!
Portanto, arregacemos as mangas e mãos à obra!

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