Reflexão para a Missa da Unidade

Reflexão para a Missa da Unidade

Categoria: Artigos

02/04/2026 Por: Dom Magnus Henrique Lopes, OFMCap

Dom Magnus Henrique Lopes, OFMCap

Dom Magnus Henrique Lopes, OFMCap

Bispo da Diocese de Crato


Amados filhos, Presbíteros, da Diocese de Crato; Caros Presbíteros de outras Dioceses; Diáconos, religiosos e religiosas, seminaristas, comunidades de vida e querido povo de Deus das nossas paróquias,
 
Paz e Bem!
 
Nesta Quinta-feira Santa, diante do altar e do santo crisma – óleo perfumado que recorda a unção recebida – a Igreja se inclina com gratidão e reverencia diante da vida de cada Presbítero, reconhecendo a grandiosidade do mistério que habita em vossos corações. Nossa existência, marcada pela fragilidade humana, foi tomada pelo Espírito e transformada em lugar de passagem da graça de Deus. Fomos assinalados para sempre pelo óleo do santo crisma, a fim de exalar o odor de Cristo e gastar a nossa vida no altar do Reino de Deus. Carregamos um tesouro imenso, que tantas vezes se oculta na labuta cotidiana.
 
Na Missa Crismal, celebração da unidade, a Igreja recorda que ser sacerdote é viver entre a unção recebida e o lava-pés diário; entre a dignidade do dom e a humildade do serviço; entre o altar e a missão de cada dia.
 
A leitura que acabamos de ouvir, do profeta Isaías, fala ao coração e aquece o espírito para que a única inquietude seja consumir-nos, livres em Cristo, pela promessa que fizemos no dia sagrado da nossa ordenação. Isaías escreve quando o povo regressa a Jerusalém, ainda marcado por feridas profundas: ruínas materiais, desalento espiritual, fraturas sociais e perda de identidade. É nesse campo de sofrimento que surge uma voz profética, ungida pelo Espírito para inaugurar um tempo novo. Ninguém pode profetizar senão por obra de Deus. Quantas vezes fracassamos no choro das noites longas do nosso ministério porque pensamos que tudo provém da nossa vã sabedoria! “O Espírito do Senhor Deus está sobre mim, porque o Senhor me ungiu” (Is 61,1).
 
Meus caros filhos, a unção não é privilégio pessoal, mas envio missionário. O profeta é constituído mediador da ação de Deus em favor dos que padecem, dos quebrantados de coração, dos cativos, dos que choram e dos que nem sempre conseguem encontrar a razão de suas lágrimas. Guardai sempre em vossos corações: o modo de agir da ternura e da misericórdia de Deus passa, silenciosamente, pelas chagas dos que sofrem. Recordai que a unção do Espírito brota da iniciativa divina: a missão nasce da graça,não do nosso mérito. Somos “inúteis”, como tão bem nos lembrou o Papa Bento XVI no início do seu pontificado ao dizer: “...elegeram a mim, um simples e humilde trabalhador da vinha do Senhor". Todos somos cônscios do barro de que fomos formados; todavia este barro deve e precisa ser trabalhado pela graça de Deus, como vaso nas mãos do divino oleiro.
 
O sentido da nossa ordenação nasce de uma humanidade tirada do meio dos homens, marcada pela dor do pecado e agraciada pelo suave sopro do Espírito. Por isso, recordai sempre: o odor do sagrado crisma deve evangelizar, curar, libertar, consolar, reconstruir. Como nos lembrou o Papa Francisco, se guardado para si, ele perde o seu perfume. “Curar os corações feridos, proclamar a libertação.” Aqui a missão ganha profundidade. O ministério presbiteral é, por excelência, o ministério da reconciliação, da misericórdia e da cura. O padre é chamado a ser presença que escuta, que acolhe, que acompanha. Pela Palavra, pelos sacramentos, pela proximidade humilde, ele se torna sinal de que Deus não se afastou da dor humana. Cada absolvição, cada unção dos enfermos, cada Eucaristia celebrada com amor é expressão concreta dessa promessa: Deus continua a libertar o seu povo.
 
Deus age através das nossas mãos, tocando o que está quebrado, devolvendo dignidade aos que foram reduzidos à cinza do luto e do fracasso. Não se trata de negar a dor, mas de proclamar que ela não tem a última palavra – e isto nós precisamos descobrir todos os dias em nossa oração. A esperança não ignora a noite longa e escura; ela nasce no coração dessas mesmas noites, encharcadas no choro do medo e da incompreensão. Meus caros filhos, haverá dias de cansaço, de incompreensão, de questionamentos e de solidão. Haverá momentos em que o ministério parecerá pesado. Mas a Palavra de Deus, hoje, nos recorda que a nossa missão é substituir o luto pela esperança, ajudar o povo – e ajudar-nos como irmãos no presbitério – a levantar os olhos e reconhecer que o Senhor continua agindo na história.
 
Evangelizar os pobres, cuidar dos corações feridos, proclamar libertação e sustentar a esperança fazem parte do coração da missão sacerdotal. Contudo, ninguém vive essa missão sozinho. O padre é chamado a viver seu ministério inserido num presbitério, numa fraternidade sacramental que sustenta, corrige, consola e fortalece, como ramos que se entrelaçam na mesma videira. Muitas das dificuldades pessoais e missionárias da vida presbiteral não nascem apenas do excesso de trabalho, mas do isolamento silencioso, da solidão não partilhada, do peso carregado sem irmãos. Isaías recorda que a obra de Deus é sempre comunitária. A fraternidade sacerdotal não é um detalhe opcional da vida ministerial; ela é verdadeiro caminho de salvação pastoral. Onde os padres caminham unidos, rezam juntos e se apoiam mutuamente, o óleo da alegria vence o espírito abatido, e a missão recupera o frescor evangélico.
 
A unidade não elimina as fragilidades, mas impede que elas se transformem em divisões. Viver como irmãos no ministério é um ato profundamente evangélico e profético, especialmente num mundo marcado por competitividade, pela desconfiança e pela fragmentação. Quando Isaías afirma que o Senhor ama o direito e detesta a injustiça, lembra-nos que cuidar uns dos outros, proteger a dignidade do ministério e não deixar nenhum irmão para trás é também uma exigência de justiça diante de Deus. Hoje, a Igreja diz obrigado. Obrigado pelas madrugadas silenciosas e longas, pelas Eucaristias celebradas mesmo quando o coração estava cansado, pelas vezes em que o padre permaneceu firme quando tudo convidava a desistir. Obrigado pela fidelidade anônima que sustenta comunidades inteiras, como uma chama que arde sem alarde. Como recorda São João Crisóstomo, “o sacerdócio embora seja exercido na terra, possui ele contudo o caráter de instituição celeste. E isto com toda razão. Pois nenhum homem, nenhum anjo, nenhum arcanjo, nenhum outro poder criado, se não o próprio Paráclito instituiu esta função, encarregando homens de carne e osso exercerem o serviço dos anjos”. (O Sacerdócio, livro III n.4).
 
Como Pastor, Pai, irmão e amigo, falo aos vossos corações nutrindo um sentimento de gratidão e rezando para que tenhais sempre o ânimo para a missão. O mesmo Jesus que disse “Hoje se cumpriu esta Escritura” continua nos dizendo nesta celebração tão cara ao nosso ministério: não tenhais medo. Não deixeis que a rotina arrefeça o entusiasmo e o encanto da unção recebida no dia da vossa ordenação. Não permitais que as feridas endureçam o vosso olhar. O Espírito que vos ungiu continua soprando sobre as brasas do entardecer da nossa vocação. A vida espiritual é o único caminho de manter o olhar fixo na Cruz de Cristo. O Papa Bento XVI lembrava que “o sacerdócio não é algo que se possui, mas alguém a quem se pertence: Cristo” (Homilia da Missa do Crisma, 2009).
 
A nossa vida tem sentido mesmo quando parece invisível. O nosso ministério frutifica mesmo quando não vemos os frutos. O mundo talvez não compreenda, mas a Igreja tem consciência de que, sem a nossa entrega cotidiana, o hoje de Deus perderia voz. Portanto, a Igreja reconhece com gratidão que a missão evangelizadora da nossa Diocese não é obra isolada de alguns, mas caminho partilhado de todo o Povo de Deus. O mesmo Espírito que ungiu Cristo e sustenta o ministério dos presbíteros foi derramado sobre todos os batizados, chamando cada um, segundo sua vocação, a participar da construção do Reino. A evangelização floresce quando bispo, padres, diáconos, religiosos, religiosas e leigos caminham em comunhão, conscientes de que ninguém anuncia o Evangelho sozinho e ninguém é dispensável na obra de Deus. A divisão e a inveja são obras de satanás, que já destruiu muitos egos inflados ou raquíticos.
 
Que esta quinta-feira Santa, missa da unidade, renove em nós a consciência de que somos uma só Igreja em missão. Fortalecidos pela comunhão, sustentados pela oração e impulsionados pelo Espírito, sigamos juntos, com gratidão pelo caminho já percorrido e com coragem para os desafios que nos esperam, certos de que o Senhor continua a dizer à nossa Diocese: “Eis que faço novas todas as coisas” (Ap 21,5). Amém!
 
Dom Magnus Henrique Lopes, OFMCap.
Diocese de Crato

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