Categoria: Artigos
30/03/2026 Por: Pe. Cícero José da Silva
“[...] voltai ao Senhor de todo o vosso coração” (Joel 2, 12)
Meus irmãos e minhas irmãs,
Na Liturgia Eucarística, há uma expressão que resume o sentido da Semana Santa, mas que, pela força do costume, muitas vezes dizemos quase de forma automática: “É nosso dever e nossa salvação”. Essa resposta nos recorda que viver a fé não é apenas uma escolha entre tantas, mas um caminho necessário para a nossa vida. É dever, porque brota do nosso compromisso com Deus; e é salvação, porque é por esse caminho que somos conduzidos à vida plena.
A Semana Santa é o tempo mais importante da vida da Igreja. Não se trata, portanto, de um feriado prolongado, como muitos podem pensar, mas da atualização do Mistério de Cristo em nossa vida, ou seja, a nossa vida se encontra e se mistura com a de Cristo. Como assim, padre?
Palavras como “atualização” e “mistério” podem parecer distantes, mas, na prática, são muito concretas. Quando sofremos uma injustiça, por exemplo, vivemos a nossa “Sexta-feira Santa” com Jesus. Quando superamos um vício ou uma tristeza profunda, experimentamos algo da nossa “Páscoa”.
Dizer, portanto, que a Semana Santa “atualiza” o Mistério de Cristo significa reconhecer que a força da sua entrega rompe o tempo e alcança a nossa vida hoje. Jesus não ficou no passado: Ele se faz presente nas nossas dores e também nas nossas alegrias.
Para que essa realidade aconteça no nosso dia a dia, podemos assumir três atitudes muito simples.
A primeira é desacelerar: procurar diminuir o uso das redes sociais e os ruídos externos, para conseguirmos escutar os passos de Cristo.
A segunda é estar presente: participar das celebrações — como o lava-pés, a adoração da cruz e a vigília pascal — de corpo e alma, colocando ali as nossas intenções e a nossa vida.
A terceira é decidir: não esperar o domingo para ser cristão. A Páscoa é a vitória sobre a morte. Viver bem a Semana Santa é decidir, já agora, deixar morrer um hábito ruim para que uma nova virtude possa nascer.
Esse caminho pode parecer exigente, mas a Igreja, como mãe e mestra, nos oferece meios simples e concretos para percorrê-lo: buscar o sacramento da confissão com um exame de consciência sincero, intensificar a oração — especialmente pela Via Sacra e pelo Santo Terço —, praticar o jejum e renunciar àquilo que nos afasta de Deus.
Essas práticas, meus irmãos e irmãs, não são obrigações vazias. São caminhos que nos ajudam a voltar ao essencial. Em um mundo barulhento, o silêncio nos devolve a escuta de Deus. Em um tempo marcado pelo excesso, o jejum nos ensina o valor do essencial. Em meio à correria, a oração nos recoloca no lugar certo, isto é: diante de Deus.
Aproveitemos, então, este tempo forte para nos perguntar com sinceridade: nossa fé é firme ou depende das circunstâncias? Seguimos Jesus apenas quando tudo vai bem ou permanecemos com Ele também na hora da cruz? Buscamos o Senhor porque cremos n’Ele ou apenas quando precisamos de algo?
A Semana Santa é, acima de tudo, um convite a voltar para dentro de nós: pelo silêncio, onde Deus fala ao coração; pela oração, onde encontramos força; pela meditação da Palavra, que ilumina nossas decisões; e pela vida em comunidade e em família, porque ninguém caminha sozinho.
Que esta Semana Santa seja, para cada um de nós, um verdadeiro recomeço, um tempo de retorno ao essencial. Que o Senhor nos conceda a graça de um coração novo, capaz de amar, perdoar, servir e permanecer fiel. E que possamos caminhar com Jesus em Jerusalém, subir com Ele ao Calvário, passar pelo silêncio do túmulo e, sobretudo, chegar com Ele à Ressurreição, não como espectadores, mas como discípulos.
Amém.
Padre Cícero José da Silva
Pároco e reitor
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