O Padre Cícero é ligeiro

O Padre Cícero é ligeiro

Categoria: Artigos

30/10/2021 Por: Fagner Andrade

Fagner Andrade

Fagner Andrade

Pernambucano
Romeiro de Salgadinho
Mestre em Antropologia e Cientista Social pela UFPE.


Nestes dias de Romaria de Finados 2021, através da TV Web Mãe das Dores, acompanhando o ‘Encontro dos Romeiros’, este saudoso encontro que nos faz lembrar a querida irmã Annette, sua maior idealizadora, local onde relembramos seu legado e ação pastoral – saudades, sim; tristeza, não - algo me marcou profundamente. Nesse tradicional encontro, sobressaiu uma das falas, a palavra de uma romeira que indagou: “Padre Cícero é ligeiro”. A mesma tratou dessa ideia a partir da experiência de ter alcançado uma graça, a graça de ter conseguido fazer a romaria ao santo Juazeiro, mesmo ainda nesse contexto de pandemia.

Essa fala da romeira resume e exemplifica o que é o Padre Cícero na cosmologia de nossos romeiros: ele é um santo, já sabemos; ele é também um guia na jornada. Porém, uma característica lhe é peculiar: a capacidade que teve em ser prático e rápido naquilo que necessitava de sua atuação e resolução. Basta recordar os conselhos, as ações em favor do trabalho dos mais carentes e agricultores, artesões e artistas, comerciantes e fazendeiros. É belíssima a ação pastoral deste homem que marcou a história do povo sertanejo e mesmo ainda hoje continua a promover diversas perspectivas e possibilidades de transcendência, sejam elas científicas ou religiosas. A fala da romeira não é mentirosa. Realmente, o Padrinho é “ligeiro”, não espera, não fica aquém dos seus, não ignora as necessidades, as complexidades, as limitações e assim por diante.

Nosso Povo se aproxima do Padrinho não apenas como mediador ou intercessor, ele é alguém de “casa”, da família, do compadrio, da comunidade e do cotidiano. É isso que faz com que expressões como essas que ouvimos surjam entre os romeiros em seus momentos de catarse, reflexão e de reconstrução através de sua piedade e devoção. A Romaria de Finados é a da esperança, esperança em dias melhores, esperança nas graças desejadas e alcançadas, pedidos simples de pessoas simples que buscam se assimilar e aconchegar-se juntas ao “amiguinho” e santo, o “santo ligeiro” que não demora em responder, porque é de casa, é de dentro da realidade, “comeu” farinha e tomou a água do sertão como todos os seus devotos. Sobre este sol escaldante pensou, plantou e construiu estruturas religiosas das mais diversas. São essas as marcas que os romeiros reverenciam por meio de seus contos, histórias e benditos. Não tenhamos dúvida de que a vela acesa em finados é marca da vontade de viver a esperança de dias melhores.

Para finalizar nossa reflexão, podemos compreender que o padrinho é “ligeiro” porque ele está em todas as realidades. Não se trata de uma mentalidade “fácil”, mas de uma pessoa capaz de abarcar as diversidades humanas e pastorais, por isso o conseguimos encontrar em diversos espaços e locais da presença humana. Ele não é símbolo apenas, mas possibilidade de caminhar na direção do sagrado. O único impasse é conseguir alcançar essas ferramentas. O que nos parece é que o romeiro já o conseguiu, talvez seja a hora de nossas instituições, sejam elas religiosas, familiares e sociais, debruçarem-se sobre a verdadeira personalidade do Padre Cícero e sobre suas ferramentas que não são muito difíceis de encontrar, basta ter a capacidade de voltar e fazer o caminho que nossos romeiros já fazem pela fé, esperança, fraternidade e solidariedade, o que nós reafirmamos como os valores do Evangelho. Pela obediência a Deus, ele foi fiel ao projeto do Reino do Pai.

 

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