O Padre Cícero e a Seca: Prática e criatividade de quem experimentou as crises da vida

O Padre Cícero e a Seca: Prática e criatividade de quem experimentou as crises da vida

Categoria: Artigos

29/09/2021 Por: Fagner Andrade

Fagner Andrade

Fagner Andrade

Pernambucano
Romeiro de Salgadinho
Mestre em Antropologia e Cientista Social pela UFPE.


Recentemente um dos temas mais conhecidos dos sertanejos começou novamente a ser veiculado aos meios de comunicação, principalmente nos telejornais, trata-se da seca, tema que praticamente faz parte da cosmologia nordestina, principalmente no que tange ao semiárido. Essas discussões tem novamente ocorrido tendo em vista a crise hidrelétrica que ameaça principalmente a conta de luz de nossa população em nível nacional, um paradoxo levando em consideração a capacidade e possibilidade de tantas outras formas de energias inclusive renováveis, que podem ser adotadas como por exemplo a energia solar, para que não soframos colapsos como esse que estamos as portas. E o padrinho? O que ele nos ajuda a refletir e agir sobre isso?

Esses dias escutei uma expressão que me abriu a reflexão para tecer essas linhas que vos apresento, “Ele mamou a seca”. Essa ideia foi tecida dentro do contexto de que o Padre Cícero viveu a triste experiência da seca, desde muito cedo, o mesmo nasceu num período em que essa realidade atingia o Sertão, portanto ele viveu desde pequeno a luta pela sobrevivência. Experimentou a devoção aos santos, as promessas, as rezas e penitências para que a chuva voltasse a cair, sem dúvida tudo isso o inspirou no processo de sua constituição enquanto pessoa e sacerdote além de fomentar toda sua pedagogia para com a seca. Vale ressaltar aqui os preceitos ecológicos, entre eles a construção de cisternas no “oitão de casa”, represar riacho, conservar o pasto, o roçado, plantar árvores e tirar proveito das plantas da caatinga, ou seja, “conviver com a seca”. Sabendo que a superação é uma utopia, porém mais eficiente é criar mecanismos para que se possa conviver com esta realidade tão complexa, ensinamentos simples, mas que são assimilados rapidamente, tendo em vista a praticidade pela qual o padrinho sempre esteve envolvido. 

Em sua primeira fase como sacerdote ele recorre a devoção e a uma pedagogia prática com seus preceitos e constantes súplicas ao bispo de Fortaleza para intervir junto ao governo, enquanto homem público recorreu as ferramentas do Estado afim de buscar recursos para poços e tantos outros equipamentos que pudessem amenizar o sofrimento do povo. As saudosas irmãs Annette e Ana Teresa na célebre obra “Padre Cícero por ele mesmo” dedicam toda uma seção a este tema que de forma muito instigante elas categorizam também a seca de “A velha conhecida do Nordeste”. Sem dúvida velha conhecida, se seu próprio patriarca viveu e “mamou” desta realidade, imagina o sertanejo que luta dia e noite para nunca abandonar seu torrão ao qual ama com a força de uma raiz que busca no mais íntimo do solo seco nutrientes para  permanecer de pé viva e a florescer gerando sombra aos seus e aos que chegarem.

Recordo que a cultura popular juntamente ao folclore romantiza determinadas situações e acabam por velar complexidades mais amplas do tema. A fé e a devoção são elementos de fortalecimento para a luta de quem todo dia busca sobreviver diante de tantas secas existentes. Isso foi visto na vida do Padre Cícero e na sua ação pastoral enquanto pessoa que buscou incessantemente ajudar seus afilhados nessa caminhada das estradas do sertão. O rosário ao pescoço, não é amuleto, mas ferramenta de trabalho e oração ao mesmo tempo que simboliza a presença da Virgem das Dores e seu padrinho que orientou a usa-lo desta forma.

Por fim gostaria de frisar que Padre Cícero foi um homem da emergência, da praticidade e da efetiva disponibilidade aos sertanejos, buscando todo o tempo estar próximo aos sofredores, com certeza uma virtude heroica de sua caminhada, escutando e buscando na sua experiência as ferramentas de resiliência como por exemplo as plantas medicinais, meios alternativos que fazem toda diferença. Isto é vida em abundância, fazendo valer a criatividade que só o sertanejo consegue identificar e aplicar. Luiz Gonzaga já cantou que “Jesus sertanejo” entende de “precisão”. O padrinho viveu, entendeu e hoje nos inspira a continuar, evidente que isso se traduziu na cultura e na “liturgia” dos romeiros, em sua forma de rezar, cantar e celebrar. Tudo isso se perpetua através de uma socialização de quem experimenta esse contexto que até agora apresentamos e refletimos. É hora de retomar esse caminho de criatividade de convivência e resiliência que o Patriarca do Nordeste nos ensinou, talvez um desafio para todos nós nesses novos contextos e formas de viver e que o pós pandemia está nos desafiando desde já, sem nunca perder o foco e a capacidade de entender que crise está diretamente ligada a crescimento.

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