O Ofício das Almas e a Romaria da Esperança do “Padim do Sertão”

O Ofício das Almas e a Romaria da Esperança do “Padim do Sertão”

Categoria: Artigos

31/10/2023 Por: Fagner Andrade

Fagner Andrade

Fagner Andrade

Pernambucano
Romeiro de Salgadinho
Mestre em Antropologia e Cientista Social pela UFPE.


Existem melodias que falam sem nenhum tipo de explicação ou argumento científico. Uma delas é o ofício das benditas almas do purgatório, esse texto piedoso e devoto carrega fortes reflexões bíblicas, teológicas e catequéticas acerca do purgatório e da vida eterna. Nele expressamos nossa devoção no intuito de oferecermos a Deus nossos parentes, amigos e conhecidos defuntos, além de todas as almas que estão no purgatório. Na romaria desse ano ele assumiu um local de destaque dentro do devocionário, importante atitude da Basílica da Mãe das Dores, fazendo-o mais conhecido e mais bem celebrado dentro deste espaço temporal que são os exercícios espirituais desta grande romaria.  Interessante que no Juazeiro, este ofício assume uma importância significativa, vale ressaltar as palavras de Padre Murilo que certa vez refletiu que a romaria do Juazeiro do Padre Cícero é um verdadeiro “seminário de nordestologia”. Isso se associa a todo um contexto onde a piedade popular evidencia determinados aspectos como por exemplo, o do sofrimento. O próprio Padre Murilo ainda acrescenta que as pessoas acompanham com mais devoção e reverência a procissão dos passos da paixão do que a da ressureição.

É importante destacar que esse fenômeno não acontece sem algum fundamento, o Nordeste sempre foi um chão marcado pelo calor, pelo sol, pela falta de água e sem falar em toda uma ausência do Estado com relação as políticas públicas que beneficie integralmente os sertanejos. Nesse contexto chegamos ao Padre Cícero, o “Padim do Sertão” que nunca abandonou sua gente, sua terra e seus romeiros, procurou de todas as formas fazer o que estava ao seu alcance e também o que muitas vezes não estava, para defender a vida em sua totalidade. Dentro dessa dinâmica social e religiosa diversos aspectos entram em cena e fazem com que a piedade devota, desenvolva associações, reflexões e sociabilidades que transmitem valores e até uma certa “estética” da oração, ou seja, aquilo que é desenvolvido no Juazeiro do Norte como maneiras de se comunicar com o sagrado, acaba sendo propagado Nordeste a fora e sendo incorporado as liturgias de nossas comunidades e paróquias.  Esse fenômeno ocorre com tantos benditos, rezas, cânticos, ladainhas e principalmente com o ofício das benditas almas do purgatório.

Durante esses dias da romaria de finados ele é tantas vezes entoado diante e com uma multidão de romeiros que carregam tantas marcas de sofrimento, dores, mas também de vitórias. Ela é a romaria da esperança e por isso dentro de suas devoções e melodias melancólicas encontramos o caminho da dor, mas que resulta na alegria da ressureição. A relação que se estabelece entre a paixão de Jesus, dos sofrimentos do padre Cícero e das lágrimas da Mãe das Dores são redirecionados a vida prática dos seus romeiros, diante dessa realidade, nos vemos e nos percebemos na grande dinâmica que as romarias podem viabilizar a vida das pessoas, com elas os peregrinos se colocam num caminho de resiliência e transformação, isso é a própria “esperança que não decepciona” (Romanos 5,5).

“Acabai as vossas correções fraternas, para que já gozem delícias eternas”. Esse trecho do ofício nos coloca numa atitude de transformar realidades é a essência do ofício das almas, em toda a letra do mesmo encontramos um caminhar conduzido pela esperança que modifica, que aplaca e que anima. Posso dizer sem medo, que nesta letra e música está a essência da romaria de finados do Juazeiro do Padre Cícero, não se trata de algo, estagnado, engessado, mas de uma belíssima festa, daqueles que encontram na vida do “Padim do Sertão” a possibilidade de refazer a caminhada, sem medo da morte, mas a redimensionando para outro patamar que não seja apenas do luto, mas de uma piedade esperançosa e edificante que mesmo caminhando nos passos da paixão espera a ressureição. A romaria de finados sem dúvida alguma é um perfeito se encontrar-se consigo mesmo, buscando vida, vida plena e abundante e isso está traduzido em tantos testemunhos e exemplos de pessoas que nestes momentos se encontraram com o sentido real de viver, fazendo-se a serviço da esperança.

 

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