O Exercício do Amor Prático

O Exercício do Amor Prático

Categoria: Artigos

24/06/2020 Por: Padre Elias - Vigário Paroquial de N. Sra. de Fátima - Crato


Impostas pela pandemia, não são poucas as restrições a que a maioria de nós está sujeita, nesse exato momento das nossas vidas.
Restrições da liberdade, da renda, do consumo... mas, sobretudo, da vida social, das ruas, das praças, das igrejas, dos clubes recreativos, das conversas nas calçadas, do convívio com os amigos, das visitas, das festinhas, dos passeios e viagens...  enfim, de inúmeras coisas às quais estávamos habituados.

Todavia, se é verdade que, hoje, muito nos fazem falta todas essas realidades que vivenciávamos fora das nossas casas, é igualmente verdade que muito nos sobra das realidades que agora vivenciamos dentro delas, envolvendo as mesmas caras e bocas, com quem somos obrigados a conviver, a tempo integral, nesses meses  de isolamento social.

Essa maratona de vinte e quatro horas por dia, com as pessoas de sempre e sob o mesmo teto, acaba constituindo uma  ocasião bastante favorável para que revelemos muito de quem somos verdadeiramente, seja nas nossas qualidades, mas, de igual maneira, nos nossos muitos defeitos; alguns deles, até então, escondidos a sete chaves.

É como se tivéssemos múltiplas personalidades e, de repente, pressionados pela intensidade e prolongamento da convivência em casa, vamos manifestando, inevitavelmente, uma a uma. E isso pode, eventualmente, tornar-se um processo desgastante, pois aqueles com quem convivemos, muitas vezes, desconheciam essas nossas facetas e acabam por não saber lidar com elas, e vice-versa.

A verdade é que, de uma hora para a outra, fomos levados a viver uma situação completamente inusitada, com a qual não contávamos. E encarar essa nova conjuntura, não é uma tarefa das mais fáceis. Exige muita paciência, boa vontade e sabedoria, mas, especialmente, uma alargada dose de amor.

Nesse sentido, o fato de estarmos mais tempo na intimidade do lar, com os nossos familiares, para além de todos os percalços oriundos de uma convivência exacerbada, é também, inegavelmente, uma oportunidade única para exercitarmos o verdadeiro amor.

Falo em "exercitar" de propósito, porque o verdadeiro amor sempre se refere a um comportamento, e nunca a um sentimento. É fruto de uma deliberação da nossa vontade; um processo que podemos treinar, aprender e praticar.

Aliás, o vocábulo "mandamento" (em hebraico, mitzvah), significa, precisamente, isso: exercício, treinamento.

Por isso, quando o Cristo diz: "Eu vos dou um novo mandamento:  amai-vos uns aos outros", é como se nos dissesse: "Eu vos dou um novo exercício, uma nova prática do amor."
Amor, não como uma obra já pronta, e sim, como uma realidade passível de ser assimilada, treinada e desenvolvida, pelo esforço da comunidade cristã e de cada um de seus membros.

Os gregos usavam o vocábulo "ágape" para descrever um amor incondicional, baseado, exclusivamente, no bom comportamento com os outros, sem a exigência de nada em troca.
Era o amor enquanto escolha deliberada.

Mais tarde, ao falar de amor, no Novo Testamento, Jesus utiliza a mesma palavra "Ágape," compreendida enquanto atitude amorosa incondicional, um comportamento, uma escolha que se faz, uma decisão que se toma; decisão essa, desvinculada do universo dos sentimentos e das emoções.

E isso faz todo o sentido, pois, nem sempre posso controlar o que sinto em relação às pessoas; mas, posso muito bem controlar como eu me comporto em relação a elas.
Todos sabemos que os sentimentos são vulneráveis, vêm e vão. É o compromisso concreto que, verdadeiramente, nos sustenta.

Nessa perspectiva, por exemplo, alguém da minha casa ou da minha família, pode ser uma daquelas pessoas difíceis de tolerar, e eu posso ter motivos mais do que suficientes para não gostar muito dela. Entretanto, ainda assim, posso me comportar amorosamente em relação a ela, por uma escolha que faço.

Pois, como já disse antes, amor não é o que eu penso, o que eu digo ou o que eu sinto. É, fundamentalmente, como eu me comporto. Santa teresa D'ávila dizia: "O amor é o que o amor faz". A prática, e somente ela, nos ensina, rapida e eficazmente, que comportamentos positivos acabam produzindo sentimentos igualmente positivos.

Reconheço, no entanto, que não é nada fácil tratar com consideração e respeito alguém de quem não gostamos tanto; muito menos, comportar-nos amorosamente com alguém que não é amável conosco ou por quem não temos afeto.

Da mesma forma que não é fácil fazer alongamentos e exercícios físicos, para criar e fortalecer músculos em nosso corpo. No princípio, é doloroso. Porém, com a prática e a perseverança, logo conseguimos.

O mesmo se dá com os nossos músculos emocionais. Com compromisso e o exercício contínuo, eles se alongam, e logo ficam maiores e mais fortes do que algum dia poderíamos imaginar.

É o maravilhoso e revolucionário poder da prática! 
Isto é, se por um lado, os nossos bons sentimentos geram bons comportamentos; por outro lado, o nosso comportamento positivo, manifestado de modo consciente e proposital, pode, igualmente, gerar pensamentos e sentimentos positivos, melhorando muito as nossas relações.

E isso está totalmente em nossas mãos! 
Aqui e agora!
Na quarentena e fora dela.
Afinal, o ser humano é, essencialmente, autodeterminante.
Ele se transforma facilmente naquilo que faz de si mesmo.

E em termos de relacionamentos, tanto podemos expressar "selvageria" como podemos expressar "santidade".
Temos ambas as potencialidades dentro de nós.
Todavia, a que vai prevalecer depende, tão somente, das nossas decisões, nunca dos nossos sentimentos ou das condições externas.

Até porque, as grandes crises pelas quais passamos, - como essa de agora, por exemplo - ao contrário do que parece, não obscurecem nem suprimem as nossas diferenças individuais; antes, as evidenciam ainda mais, desmascarando e revelando, tanto os humildes e felizes, quanto os arrogantes e fracassados.

Queira Deus que as nossas escolhas atuais possam ser determinadas por amor - do modo como aqui o compreendemos - e, assim sendo, permitam que os nossos nomes estejam escritos na lista das pessoas felizes.


Amém!

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