No confessionário, todos vivem a mesma Misericórdia

No confessionário, todos vivem a mesma Misericórdia

Categoria: Artigos

19/02/2026 Por: Pe. Cicero José da Silva

Pe. Cícero José da Silva

Pe. Cícero José da Silva

Reitor da Basílica Santuário Nossa Senhora das Dores


Era uma cena simples. Enquanto a Missa de Cinzas acontecia ao lado, o murmúrio distante da celebração chegava suave à Capela do Encontro, onde um padre se aproximava do sacramento da Reconciliação. Não havia multidão, nem anúncio, nem solenidade particular; apenas a luz filtrada pelos vitrais e o roxo que marca o início da Quaresma. Nada de extraordinário aos olhos apressados: dois homens, uma estola e um confessionário. Mas, visto por olhos que sabem demorar na contemplação, havia algo ali que falava mais alto que qualquer homilia.

O confessionário, tantas vezes associado apenas aos fiéis que procuram o perdão, revelava outra face do mistério. Ali estava um sacerdote, aquele que tantas vezes estende as mãos e pronuncia palavras de absolvição, curvava-se também como filho necessitado. Ele, que aconselha, também precisa ser aconselhado. Ele, que escuta pecados, também carrega os seus. Ele, que fala da graça, também depende dela. Ele, que fala de conversão, também se converte.

Esse tempo de 40 dias tem dessas delicadezas escondidas. Enquanto o mundo continua seu ruído habitual, a Igreja convida ao recolhimento, à penitência, ao retorno para o que é essencial. Aí se condensa parte da pedagogia da Quaresma: ninguém caminha sozinho, ninguém é autossuficiente diante de Deus.

Há um fascínio imenso e uma força silenciosa nisso, pois a autoridade que nasce dessa postura é diferente da autoridade do mundo. Ela não brota da impecabilidade, mas da humildade. Não se sustenta na aparência de perfeição, mas na coragem de reconhecer limites. É preciso lembrar também que a Quaresma não é teatro espiritual, nem um esforço para parecer melhor, mas é a coragem de ser verdadeiro discípulo.

Ver um padre se confessando é como ver a Igreja respirando humildade. É o Corpo reconhecendo que precisa do próprio Jesus para continuar a caminhada e agindo in persona Christi (na pessoa de Cristo). A estola que diariamente pesa sobre os ombros do confessor não o torna menos necessitado de perdão, pelo contrário; talvez o torne ainda mais consciente de sua fragilidade e que a verdadeira força da fé não está na perfeição, mas na confiança humilde de quem se deixa levantar.

Essa confissão é luz ao mostrar que o confessionário não é apenas um lugar funcional, mas sinal vivo da Igreja que se purifica. Não é palco de fraquezas expostas, mas espaço de confiança. Ali não há cargos, apenas filhos. Não há funções, apenas corações que se sabem frágeis e, ainda assim, infinitamente amados.

Nesse ideal a Igreja revela sua verdadeira beleza, que nasce a partir da atitude de quem se ajoelha antes de se levantar para servir, de quem pede perdão antes de oferecê-lo e de quem sabe que a santidade não é ausência de quedas, mas fidelidade ao retorno. Afinal, a Quaresma é isso: um caminho de volta. E, às vezes, basta uma cena silenciosa no confessionário para lembrar que todos, sem exceção, vivem da mesma misericórdia.

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