"Tudo é Impermanente"

"Tudo é Impermanente"

Categoria: Artigos

11/05/2020 Por: Assessoria de Comunicação


O psicólogo Roberto Crema, em uma de suas obras, conta que, certa vez, alguém perguntou a um pajé americano, de 101 anos: O que o Senhor faz? Ele respondeu: Eu ensino o meu povo. O que o Senhor ensina? Ele disse: Ensino quatro coisas.

Primeiro, ensino o meu povo a escutar; segundo, que tudo está ligado com tudo; terceiro, que tudo está em transformação; quarto, que a terra não nos pertence, nós é que pertencemos à terra."

Com isso, logo percebemos que tudo na vida começa com a nossa capacidade de escutar.

Aliás, de todas as crises, a única realmente insuportável é aquela para a qual não temos uma escuta, não sabemos interpretar, não temos um sentido para dar.

Porém, quando escutamos a vida, rapidamente nos damos conta de que tudo está ligado com tudo, como diz o poeta: "Não há como arrancar uma flor de um jardim, sem mexer com as estrelas."

A consciência seguinte é óbvia: tudo está em transformação. Tudo muda o tempo todo. Os locais onde pisamos são todos pontes, lugares de passagem.

E, finalmente, quando despertamos para essas três verdades, não mais nos sentimos proprietários de terra alguma, ou de qualquer coisa que seja.

Ora, por coincidência, ainda estamos no tempo litúrgico da Páscoa. E ela tem para nós, precisamente, esse significado de passagem, mudança, transformação, impermanência.

Assim sendo, a Páscoa nos faz dois grandes desafios.

Primeiramente, desafia-nos a reconhecer e aceitar a força imperativa da mudança, pois, como dizia o filósofo Heráclito: "Ninguém pode banhar-se duas vezes no mesmo rio, porque as águas se renovam a cada instante." Eu diria, inclusive, que não podemos tomar banho nem mesmo uma vez, porque as águas que lavam os nossos pés, já não são as mesmas que lavam as nossas cabeças.

Em segundo lugar, a Páscoa nos desafia a sermos sujeitos ativos dessa mudança, a atuar como protagonistas nesse processo.

Isto é, somos chamados a aprender a passar com o que passa, a mudar com o que muda, mas, ao mesmo tempo, aprender a ficar com o que fica; ou seja, a abrir-nos para as novidades que se apresentam após cada mudança.

Então, as perguntas fundamentais que se impõem a todos, nesse instante, não poderiam ser outras, senão estas:

Em que medida estamos verdadeiramente preparados para as mudanças? Para perder o emprego, um ente querido, um familiar? Para uma doença grave, um desastre ou uma tragédia imprevisível?

E, já agora, em que medida os familiares das vítimas dessa doença do momento, estavam preparados para uma mudança tão repentina e de tamanha envergadura em suas vidas?

O fato é que, lamentavelmente, quase nunca nos preparamos para tais circunstâncias. Por esse motivo é que sofremos tanto.

Afinal, a felicidade nunca estará ao alcance dos despreparados. Infelizmente, a maioria das pessoas acredita que essa preparação é desnecessária, que ela acontece naturalmente no decorrer da nossa existência. Um ledo engano!

No que diz respeito ao ser humano, nenhuma evolução acontece por livre e espontânea geração. Só evoluímos através de um ato de consciência.

Portanto, o preparo é sempre fruto de uma intenção, de um exercício, de um treinamento, de uma disciplina, de um aprendizado, enfim.

E o segredo para isso, talvez seja, utilizarmos o nosso expediente do dia-a-dia, para realizar, propositadamente, algumas mudanças. Começando por coisas pequenas e simples, uma vez que só pode fazer o grande quem é capaz de fazer o pequeno.

Pois, somente quando fazemos as mudanças menores, de dentro para fora, por nossa própria iniciativa e consentimento, é que nos capacitamos para as mudanças maiores que acontecem, geralmente, de fora para dentro, arbitrariamente, sem nos pedirem a mínima permissão.

Trata-se de procurarmos fazer coisas diferentes daquelas que fazemos rotineiramente.

Até porque, a rotina nos oferece o risco de acreditarmos que nada mais existe no mundo, além dela própria.

 E isso é extremamente perigoso.

Nessa perspectiva, cada um de nós é chamado a avaliar, urgentemente, quais aspectos da nossa vida precisam mudar; e começar, sem demora, esse precioso exercício de mudança. Pensemos, então, em nossos hábitos, no que comemos, nas roupas que vestimos, nos ambientes que frequentamos, nas leituras que fazemos, nas músicas que ouvimos, nas amizades que cultivamos, nos assuntos que conversamos, no que vemos na televisão e na internet, no uso que fazemos do nosso tempo livre, etc.

Comecemos a mudar por essas coisas, não absolutizando nenhuma delas.

Afinal, fanática é a pessoa que nunca muda de assunto; ou seja, aquela que vive de um jeito só, fazendo as coisas que sempre fez a vida inteira. Então, é fundamental que não nos deixemos fanatizar por nada nesse mundo.

Trata-se, aqui, de aprendermos a nadar antes de sermos jogados nas águas profundas de um rio, pois, se isso vier a acontecer, sem o anterior aprendizado, será bem mais difícil sobreviver. Infelizmente, é isso que tem ocorrido a muitas pessoas.

É como nos dizia o poeta Fernando Sabino, na sua intuitiva sabedoria: "De tudo, ficam três coisas: a certeza de que estamos começando; a certeza de que é preciso continuar, e a certeza de que podemos ser interrompidos antes de terminar, a qualquer momento."

E é, precisamente, para essa interrupção súbita, inesperada e imprevisível, que devemos estar preparados.

Aliás, de vez em quando, talvez nos fizesse muito bem perguntar:

O que faríamos se soubéssemos que esses são os nossos últimos dias de vida? Essa questão, por si só, tem um imenso poder de transformação.

E, certamente, se tivermos consciência de que o nosso tempo de vida está acabando, - como, de fato, está, para todos - o bom senso nos aconselha a utilizá-lo da melhor forma possível, a não desperdiçá-lo com as trivialidades da rotina, a fazer coisas que ainda não fizemos, a mudar muitas outras, a experimentar realidades diferentes; mas, sobretudo, isso permite que olhemos retrospectivamente para as nossas vidas, enquanto ainda temos tempo e oportunidade de fazer algo por ela.

Pois bem!

É exatamente esse, o ponto onde estamos agora!

Portanto, sirvamo-nos dele com a máxima inteligência e sabedoria que Deus nos concedeu.

Desse modo, estaremos sempre preparados para o que der e vier, uma vez que nenhuma mudança terá mais o poder de nos apanhar de surpresa!

 Que assim seja!

 

Pe. Raimundo Elias, Vigário Paroquial de N. Sra. de Fátima - Crato

 

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