"Ser para nós mesmos"

"Ser para nós mesmos"

Categoria: Artigos

30/07/2020 Por: Pe. Elias


Erick Fromm, um reconhecido filósofo e psicanalista alemão, dizia que a principal tarefa na vida de uma pessoa, não é outra, senão, "dar à luz a si mesmo", ou seja, tornar-se aquilo que é, potencialmente.
Trata-se da necessidade urgente de nos dedicarmos à tarefa de uma autodescoberta, constante e incessante.

E quando assim o fizermos, certamente começaremos a vislumbrar a mais bela imagem da realidade com que alguma vez sonhamos.

Nessa perspectiva, a vida, com todas as suas ocorrências, é a primeira e mais importante escola na realização dessa descoberta acerca de nós próprios. 

Nela, todas as experiências que vivenciamos vêm ao nosso encontro para ensinar-nos, naturalmente, a lição que mais precisamos aprender em cada fase específica da nossa viagem. 

Podemos despertar para esta ação da natureza ou, diferentemente, podemos fechar os olhos para ela. 
Porém, ao fazê-lo, incorremos no risco de continuar a repetir os mesmos erros de sempre, até que, um dia, a dor se torne tão grande e tão insuportável que não nos deixará outra alternativa, a não ser mudar.

Entretanto, é bom não esquecermos que, nessa escola da vida, todos nós temos um currículo diferente a seguir. 
Ou seja, os ensinamentos que eu tenho de aprender, não são, necessariamente, os mesmos de outras pessoas; são meus,  somente meus, numa espécie de  aprendizagem personalizada.

Assim sendo, todos os acontecimentos que entram nas nossas vidas, de um modo ou de outro, o fazem por uma razão, por um propósito.
Não há coincidências.
É como se o mundo fosse um enorme radar que detecta as nossas necessidades de crescimento e, depois, nos envia os respectivos acontecimentos para promoverem esse mesmo crescimento.

Nesse contexto, as coisas que nos acontecem, em geral, funcionam como espelhos que refletem, ora as partes mais luminosas, ora as partes mais obscuras, de nós próprios.

Em vista disso, tanto neste momento extremamente delicado pelo qual passamos agora, quanto em quaisquer outras ocasiões, o verdadeiro objetivo da vida é, por assim dizer, a auto-revelação: revelar o melhor de nós ao nosso ser atual, a fim de que passemos a ver o mundo com olhos diferentes; isto é, com os nossos próprios olhos.

Para isso, todos somos chamados a dar às pessoas que nos rodeiam - incluindo a nossa pessoa - a permissão da singularidade, da autenticidade, da diferenciação.

Em outras palavras, temos de deixá-las  tocar o seu proprio tambor, dançar o seu próprio ritmo, sentindo-se suficientemente seguras para se revelarem como são. 

Lamentavelmente, a maior parte das pessoas morre com a grande canção das suas vidas por cantar. Não saboreiam as maravilhosas experiências a que estavam destinadas desde sempre. 
E isso é uma enorme tragédia, não somente para elas, mas, igualmente, para todo o universo.

Afinal de contas, o mundo será melhor ou pior, conforme nos tornemos melhores ou piores.

Vivermos uma vida diferente ou contrária àquela que foi, exclusivamente, concebida e talhada para nós, constitui-se no supremo pecado.
Até porque, uma vida de sucesso não pode existir fora da autenticidade e da inteireza.

Em suma, quanto maior for a lacuna entre quem somos por dentro, - o nosso verdadeiro ser - e a maneira como nos apresentamos por fora, - o nosso ser social -  maior será a infelicidade que sentiremos na vida.

Aliás, a mais profunda derrota que os seres humanos podem sofrer, é sempre produzida pela diferença entre aquilo que alguém é capaz de se tornar e aquilo que alguém efetivamente se tornou.

Eis a principal razão pela qual, atualmente, milhões de homens e mulheres no mundo inteiro apresentam um visível desconforto espiritual: é que carregam nas costas, o tempo todo, a lacuna da integridade.
Traem-se permanentemente, impedindo o brilho da sua verdadeira essência.

Assim, toda a insatisfação que sentimos é, nada mais nada menos, que o nosso destino, batendo insistentemente na porta da nossa vida atual. 
É a nossa alma gritando conosco, exigindo que acordemos de uma vez por todas, que nos voltemos para o nosso eixo e deixemos vir à tona o ser que verdadeiramente somos.

Como seríamos? Que coisas deixaríamos de tolerar? Que atividades deixaríamos de realizar e que pessoas excluiríamos conscientemente da nossa vida, se passássemos a pensar, a sentir e a agir de maneira autêntica?

Ora, precisamos saber que, do ponto de vista espiritual, quando alinhamos o nosso mundo exterior com o nosso mundo interior, o universo se converte em nosso melhor aliado e passa a conspirar sempre a nosso favor.

E nem mesmo as mais terríveis ameaças das piores pandemias, têm o poder de alterar essa verdade.

Esse é, portanto, o desafio da integridade, da nossa genuína vocação: descobrir o caminho que nos leva a nós próprios e seguir por ele, sem hesitação.

Vamos nessa?

 

Pe. Elias, vigário paroquial de N. Sra. de Fátima - Crato

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