"Em busca de significado"

"Em busca de significado"

Categoria: Artigos

20/07/2020 Por: Padre Elias


Começo essa reflexão de hoje, tendo presente o enredo de um filme por demais conhecido do público em geral, cujo nome é "O resgate do soldado Ryan."

O cenário do filme é a Segunda Guerra Mundial e narra a história de um grupo de militares americanos, formado com a única e exclusiva finalidade de resgatar um paraquedista que havia caído em território inimigo e que lá encontrava-se perdido.

O capitão Miller recebe a missão de comandar aquele grupo, com a tarefa de procurar, resgatar e garantir que voltasse vivo para casa, o dito soldado, que se chamava Ryan.

Este, por sua vez, era o caçula de quatro irmãos, dentre os quais três haviam morrido em combate.

Após vários contratempos e inúmeras dificuldades, a unidade do Capitão Miller, finalmente, encontra o soldado Ryan, juntamente com os seus outros companheiros paraquedistas sobreviventes.

Eles estavam, naquele exato momento, em plena frente de batalha e sob pesado ataque do exército alemão.

O Capitão Miller, logo que chega ao local, assume prontamente o comando daquela operação.

Entretanto, as coisas se complicam e vários militares do grupo acabam por morrer naquele confronto, inclusive, o próprio capitão é atingido mortalmente por um disparo inimigo.

No instante da sua agonia final, estando os alemães já batendo em retirada, o soldado Rayn vai ao encontro do capitão que está nos seus derradeiros momentos de vida.

Ali, acontece a cena mais emocionante e emblemática do filme. Nela, o soldado Ryan, já devidamente resgatado e em total segurança, é agarrado pelas mãos trêmulas do capital Miller que, fitando os olhos nele, lhe dirige as suas últimas palavras antes de morrer, dizendo-lhe:

"Faça por merecer! Faça por merecer!"

A história prossegue e, no final, o filme apresenta uma cena em que, depois de passados muitos anos, vê-se o dito soldado Ryan, já bastante idoso, em visita ao cemitério e ajoelhado frente ao túmulo do Capitão Miller.

Visivelmente emocionado, o ex-combatente volta-se para a esposa que o acompanhava e pergunta-lhe, num tom de desabafo:

"Será que eu fiz por merecer?"

Eis a grande e urgente reflexão que o passar dos anos obriga-nos a fazer:

Temos feito por merecer a vida que levamos?

Temos sido dignos dos dias que vivemos, do maravilhoso dom da existência que recebemos, dos amores e amizades que partilhamos, do apoio e solidariedade que nos ofereceram, das boas condições materiais que usufruímos, da educação que nos transmitiram, das alegrias que nos proporcionaram, dos caminhos e oportunidades que nos abriram?

E mais: nesse exato momento histórico pelo qual passamos, diante de um vírus que já subtraiu a preciosa vida de milhares de pessoas e fez adoecer milhões de outras, não seria oportuno que indagássemos se somos dignos de ter escapado ilesos, quando tanta gente boa já se foi?

Merecemos ter-nos livrado da força letal desta enfermidade sem, ao menos, ter sofrido as mais leves manifestações dos seus sintomas?

E caso tenhamos passado por internamento em alguma unidade hospitalar e já estando totalmente recuperados para tocar a vida, fazemos jus aos muitos cuidados que os profissionais de saúde nos dispensaram, a fim de que os nossos nomes pudessem constar na lista dos que foram curados?

A verdade é que, todos nós, em maior ou menor proporção, acumulamos muitos débitos positivos ao longo da nossa jornada; muitas dívidas jamais cobradas por uma enorme quantidade de pessoas que nos ajudaram a chegar até aonde chegamos, e outras tantas que nos possibilitam continuar a ser o que agora somos.

E uma das principais razões para permanecermos vivos, é podermos pagar, uma a uma, todas essas dívidas acumuladas para com a vida.

Aliás, pouquíssimas alegrias podem  ser comparadas àquela que brota da consciência de que temos as condições necessárias para pagar tudo o que devemos.

Isto significa dizer que, aqui e agora, podemos começar a colocar de volta aquilo que tiramos do mundo, podemos retribuir um pouco do que recebemos e compensar, de algum modo, o que a vida e as pessoas fizeram por nós.

Afinal de contas, a nossa essência original nunca esteve sedenta de fama, conforto, posses materiais ou poder.

Na verdade, o que temos mesmo é fome do significado da vida, de aprendermos a viver de tal forma que a nossa existência tenha importância e seja capaz de tornar o universo melhor, ao menos um pouquinho, através da nossa passagem por ele.

Nem todo o dinheiro e o poder do mundo juntos, são capazes de satisfazer essa fome sem nome que sentimos na alma!

Nessa perspectiva, as perguntas fundamentais que se nos impõem agora, não são outras, senão estas:

De que forma devo viver para que a minha vida signifique algo mais que um simples lampejo de existência biológica, que logo desaparecerá para sempre?

Terá a nossa existência um propósito além do simples existir?

O fato de estarmos vivos tem importância?

O nosso desaparecimento deixaria o mundo mais pobre ou apenas menos povoado?

São perguntas desesperadamente urgentes!

E poderemos até mesmo adoecer, nos sentirmos ainda mais solitários e cheios de medo, se não as pudermos responder atempadamente.

Podemos alcançar todos os itens de nossa lista de desejos e, ainda assim, nos sentirmos vazios. Podemos ter atingido o ápice de nossa profissão e, mesmo assim, sentir que nos falta alguma coisa. Podemos saber que somos admirados e invejados por amigos e conhecidos e, apesar disso, perceber a ausência de um contentamento verdadeiro em nossas vidas.

Pois, o que falta para nós, não importa o que tenhamos conseguido, é esse sentimento de significar alguma coisa.

Aliás o medo da morte que muitas vezes povoa os nossos maiores pesadelos, é bem menor que o pavor de uma vida sem importância para o mundo.

Por essa razão, desconfio que as pessoas mais felizes que algum dia possam ter existido, são aquelas que se esforçam por serem generosas, confiáveis e prestativas.

Até porque, não existe maior propósito na vida do que prestar serviço.

Inclusive, tudo o que temos e somos, só possui algum sentido se, de alguma maneira, for colocado a serviço dos outros, em especial, daqueles que não têm e que não são.

Para as pessoas que seguem por esse caminho, a felicidade vai entrando devagarinho em suas vidas, enquanto elas estão ocupadas com este esforço.

Ninguém se torna feliz perseguindo a felicidade, e sim, vivendo uma vida que, verdadeiramente, signifique alguma coisa de utilidade para o mundo.

E, talvez, sejam, precisamente, essa tal utilidade e esse dito significado, os elementos que nos vão livrar do perigo de sermos apenas normais, capacitando-nos para sermos, de fato, humanos.

Eis a indispensável alquimia que somos desafiados a realizar!

Podemos começar?

Pe. Elias, vigário paroquial de N. Sra. de Fátima - Crato

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