"Chegou a Vez do Espírito" 

"Chegou a Vez do Espírito" 

Categoria: Artigos

01/06/2020 Por: Assessoria de Comunicação


A Festa de Pentecostes, que temos a graça de celebrar por mais um ano, sem sombra de dúvidas, marca uma mudança substancial no que diz respeito à presença de Deus em nosso meio, com profundas implicações para o mundo e para o conjunto da humanidade.

Essa mudança radical consiste, simplesmente, no fato de que, Jesus Cristo, após a Ressurreição, tenha passado de uma existência carnal a uma existência espiritual.

Com isso, inaugura-se um novo tempo, o tempo do Espírito! 

É verdade que Jesus de Nazaré viveu plenamente segundo a carne, com exceção do pecado, enquanto por aqui passou.
Contudo, esse modo carnal de existir foi totalmente modificado através da Ressurreição.

Entretanto, paradoxalmente, viver segundo o modo do Espírito, não significa, de forma alguma, abandonar o corpo. 
Trata-se de uma presença inovadora, misteriosa e surpreendente. 
É como se o Espírito passasse a constituir, Ele próprio, a matéria do corpo ressuscitado de Jesus. 

Em outras palavras, exaltar o Espírito não é depreciar o Cristo histórico, nem reduzi-lo a um plano inferior. 
Muito pelo contrário, a missão do Espírito é a de integrar todos os seres humanos no Cristo, uma vez que, para nos levar a Ele, não há outro caminho, senão o Espírito.

Não existe, nem jamais poderá existir, nenhum caminho já traçado antecipadamente.
O único caminho é o que o Espírito vai dispondo, a cada minuto.

Assim, fica totalmente excluída a possibilidade de um caminho exclusivo. Existem milhões de caminhos e o Espírito representa a unidade entre todos eles. 

Desse modo, podemos dizer que não existe, por exemplo, uma maneira de uma pessoa se parecer com o Cristo, tal como Ele se mostra nos Evangelhos.

A imitação de Cristo só se faz por meio do Espírito e segundo uma imensa diversidade de tipos e de modos diferentes. 

Ou seja, cada qual imita tanto melhor o Cristo, quanto mais for original, na criação do seu próprio modelo e no exercício de suas próprias ações. 

Nessa perspectiva, as duas missões, a do Cristo e a do Espírito, não obstante serem distintas, se completam, se interpenetram e se tornam, ambas, necessárias para realizar a única ação de Deus no mundo.

Por isso, é fundamental que conheçamos essas duas missões, nas suas diferenças e complementaridades. 

É precisamente este, o desafio que se nos impõe agora. 
Vamos a ele, então!

 1°) No Cristo, o filho foi enviado a um único homem e se uniu à uma só natureza humana e individual.
 Já no espírito, Deus é enviado a uma multidão incontável e age no interior de uma imensa diversidade de pessoas. Isto quer dizer que, os seres humanos são assumidos por Deus em sua multiplicidade e diversidade. 

 2°) No Cristo, a pessoa humana é substituída pela pessoa divina, numa espécie de rebaixamento de toda a personalidade humana. 
Porém, no Espírito, é o Cristo que, por assim dizer, se rebaixa, escondendo a sua personalidade e exaltando a personalidade do homem. 

Isto nos revela que a Encarnação do Cristo só atinge o seu propósito, através da ação do Espírito, que coincide com o desenvolvimento pleno de cada ser humano.

 3°) No Cristo, a missão do filho acaba sendo a manifestação de Deus, tão somente, em uma única existência humana, que é, precisamente, a de Jesus, com suas palavras, gestos e ações.

Todavia, pelo Espírito, nós nos tornamos capazes de criar atos totalmente nossos, únicos como nós somos únicos, em situações e contextos enormemente diferentes, pelo mundo afora. E, por meio deles, manifestar, igualmente, a única e mesma presença de Deus.

Em outras palavras, podemos dizer que o Espírito é a possibilidade que Deus nos concedeu de atualizar, de uma vez por todas, a presença de Cristo, em nós e no mundo, dia após dia. 

 4°) No Cristo, a autoridade divina se apresenta, naturalmente, de modo superior, no confronto com a autoridade humana. 
Afinal, Jesus é o Filho de Deus, o Mestre e Senhor por excelência; e, diante d'Ele, os discípulos não podiam fazer outra coisa, senão, ver, ouvir e acolher.
Ou seja, se Jesus tivesse permanecido no mundo por mais tempo, o comportamento dos discípulos, e também o nosso, poderia ficar definitivamente marcado por uma total dependência e uma natural falta de autonomia e iniciativa própria.
Era por essa razão que Jesus não se cansava de dizer-lhes: "É preciso que eu vá, para que venha o Paráclito."
Como se quisesse dizer que, se não fosse embora deste mundo, nunca mais eles poderiam ser eles mesmos.

Por conseguinte, através do Espírito, podemos nos situar diante de Deus, sem qualquer receio de que sejamos rebaixados ou aniquilados por sua grandeza e vontade. Pois, na verdade, o Espírito nos constitui como sujeitos autônomos; obedientes a Cristo, mas, por uma decisão individual, livre e soberana.
Logo, podemos afirmar, categoricamente, que, pelo Espírito, o ser humano se aproxima mais de Deus, quanto mais for fiel a si mesmo. 

Isto tudo nos permite compreender que, pela força do Espírito, todos os seres humanos e, com mais razão ainda, todos os cristãos, somos chamados a nos tornar a mais recente edição de Jesus Cristo na face da terra.   
Uma edição totalmente nova, revisada, ampliada e atualizada, capaz de responder às exigências e aos desafios próprios do tempo presente. 

Por meio da missão do Espírito, a humanidade tem o poder e o dever de reinventar a ação de Cristo na terra e, fazer isso, a seu modo, múltiplo e diverso, em todos os tempos e espaços, a fim de formar uma grande ação, uma única história. 

Nessa perspectiva, fica mais do que evidente que o Espírito é enviado ao mundo para nos fazer agir. Suas ações são as nossas ações. 
Ele não tem ações próprias, tem apenas as nossas. 
Com isto, nossas ações se tornam, naturalmente, ações do Espírito de Deus.

Essa missão do Espírito no seio da humanidade, teve apenas o seu início em Jesus, historicamente falando. 
Porém, desabrocha continuamente pela ação da humanidade e das pessoas em particular, as quais são chamadas a refazer a história a cada instante.

É nesta consciência e, somente a partir dela, que o Cristo poderá permanecer vivo e atuante no coração das pessoas e no coração do mundo.

Eis o verdadeiro Pentecostes!

 

Pe. Raimundo Elias, vig. paroquial de N. Sra. de Fátima - Crato.

Reflexão baseada no seu livro: "O Espírito Santo pede passagem," 2004

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