"Apressa-te Devagar"

"Apressa-te Devagar"

Categoria: Artigos

15/06/2020 Por: Assessoria de Comunicação


Há muitos séculos, na Roma antiga, o Imperador Augusto cunhou a expressão "festina lente", cujo significado é, "apressa-te devagar".

Porém, lamentavelmente, essa expressão logo caiu no esquecimento e, nos dias de hoje, pouco ou quase nenhum espaço encontra na vida das pessoas. 
Passamos o tempo todo numa frenética e incessante correria, de um lado para o  outro - sobretudo nas médias e grandes cidades - desperdiçando o nosso precioso tempo numa rotina nem sempre edificante e satisfatória.

Ora, o tempo é uma parte da eternidade, do inalcançável; mas, também, é uma dádiva que recebemos todos os dias.
É muito mais valioso do que o dinheiro, porque este pode ser poupado, mas aquele chega e passa; é uma oportunidade que nos é oferecida apenas uma vez na vida.

Entretanto, neste estilo de vida que nos caracteriza, é frequente reconhecermos o verdadeiro valor do tempo, somente quando adoecemos, quando envelhecemos ou quando sofremos uma fatalidade. 
Só nessa altura começamos a pensar de forma diferente e conseguimos ver com bastante nitidez o que é realmente importante para nós. 
É nestes momentos que percebemos com toda a clareza o que queremos fazer com o nosso tempo. 
Todavia, pode ser tarde demais.

Nesse sentido, as palavras de ordem hoje são: parar, diminuir o ritmo, lentificar as nossas ações e imprimir mais vagarosidade a tudo aquilo que fazemos na vida.

Por que falar de lentidão agora?
A resposta é simples: porque estamos perdendo, pouco a pouco, a nossa alma, que se movimenta, naturalmente, devagar.

Por isso, enquanto caminharmos completamente distraídos, numa sociedade em que a pressa - por produzir, por consumir, por ir de um lugar para o outro - for determinante, nos conduziremos à destruição do nosso habitat natural, bem como, à nossa própria destruição. 
E, ao mesmo tempo, criamos e avolumamos gravíssimos problemas, como as alterações climáticas e as modernas doenças sociais, compatíveis com o stress, o tédio e a depressão. Tudo isso, causado por um ritmo de vida que não nos permite qualquer hipótese de felicidade e bem-estar. 

Nessa pressa em que vivemos, as mensagens de stress enviadas pelo nosso cérebro, convertem-se, automaticamente, em transtornos físicos, os quais se refletem, de forma direta, em nosso organismo, como um todo, afetando-o, consideravelmente. Assim, quando somatizamos o mal da pressa, esta acaba por se transformar numa grave patologia.

Por outro lado, a ciência biológica ensina-nos que o nosso corpo possui uma música interna que podemos e devemos sintonizar, se quisermos, de fato, levar uma vida feliz e saudável.

Desse modo, quando decidirmos caminhar mais lentamente pelas estradas da vida, logo descobriremos, por experiência própria, que andar mais devagar não significa não fazer as coisas que temos para fazer, mas, sim, fazê-las de acordo com o ritmo apropriado a cada situação. 

Descobriremos também que pode haver desenvolvimento humano, mesmo sem crescimento econômico e sem que tenhamos de apressar os nossos ritmos ou transgredir a nossa natureza primordial.

A lentidão que nos é proposta, não é mais do que uma adequação do nosso tempo aos tempos da natureza, da qual fazemos parte.
Isto é, não se trata de não evoluir, nem de não utilizar a tecnologia, pois estar vivo implica desenvolver o nosso conhecimento e causar impacto no meio ambiente; mas, sim, trata-se de co-evoluir com o meio vivo e com a sociedade, com respeito e moderação, tendo sempre em conta os limites da natureza e dos sistemas sociais.

Certamente, nenhum negócio vai deixar de se concretizar se almoçarmos tranquilamente ou desfrutarmos de um momento de silêncio, sem ter de ouvir permanentemente o som do celular que não para de tocar.

Portanto, somos desafiados a reduzir a velocidade e o volume das coisas que fazemos, lembrando-nos sempre de que, estar atarefado e submerso em trabalho, o tempo todo, não deixa de ser uma forma de preguiça. 
É, muitas vezes, tão improdutivo quanto não fazer nada, além de ser muito mais desagradável.

Aliás, estar ocupado é, muitas vezes, utilizado, conscientemente ou não, como um pretexto para evitar e fugir das poucas ações crucialmente importantes, porém, desconfortáveis.

Nessa perspectiva, ser seletivo e fazer menos, é o caminho das pessoas verdadeiramente produtivas. 

Como bem dizia Saint-Exupéry: "A perfeição não é quando não há mais nada a acrescentar, e sim, quando não há mais nada a retirar".

Em outras palavras, a pessoa verdadeiramente rica e realizada, não é aquela que tem mais, e sim, aquela que pode prescindir de mais.

Recordo, agora, o famoso Steve Jobs que, poucos anos antes de morrer, dizia o seguinte, em um dos escritos: 
"Nos meus últimos anos tenho olhado para o espelho todas as manhãs e perguntado a mim próprio: Se hoje fosse o último dia da minha vida, desejaria fazer o que estou prestes a fazer agora? 
E sempre que a resposta é "não", tomo consciência de que preciso mudar alguma coisa... quase tudo -  todas as expectativas externas, todo o orgulho, toda a vaidade, todo o medo de embaraços ou fracasso - essas coisas simplesmente desaparecem diante da morte, deixando apenas o que é verdadeiramente importante.
Lembrarmo-nos de que vamos morrer, é a melhor maneira que conheço de evitar a armadilha de pensar que temos alguma coisa a perder."

Em suma, o desafio que se nos impõe agora e nesses tempos que se aproximam, é precisamente, este: fazer menos coisas; fazer uma coisa de cada vez e fazê-las bem feitas; de preferência, sem pressa, vagarosamente.

Eis o caminho! 
Caminhemos por ele!

 

Pe. Elias, vigário paroquial de N. Sra. de Fátima - Crato

Comentários:

Inscreva-se em nossa Newsletter