"A positividade de Tudo"

"A positividade de Tudo"

Categoria: Artigos

23/05/2020 Por: Assessoria de Comunicação


Nessa nossa incansável caminhada em busca de um sentido para a vida, mesmo conscientes do imenso mistério que naturalmente a envolve, de uma coisa podemos ter certeza: tudo, absolutamente tudo, tem um propósito, uma razão de ser, uma intencionalidade.
Nada acontece em vão ou por acaso.
Podemos - como, de fato ocorre, na maioria das vezes - não conhecer esse propósito, não saber interpretá-lo devidamente ou, nem mesmo, dar-nos conta dos sinais que ele emite a todo instante.

Entretanto, sabermos da sua existência, já é, por si só, um enorme conforto para nossa alma; sobretudo, em momentos extremos de desalento, incertezas e sofrimentos, como esse que agora vivemos.

Diz a sabedoria oriental que todos nós temos uma espécie de "cota" de sofrimento para experienciar, ao longo dos nossos dias de vida, cuja finalidade é a de ensinar-nos algo e fazer-nos crescer.
E independentemente do que façamos, o sofrimento vai manifestar-se, mais cedo ou mais tarde. Todavia, quando tivermos assimilado e incorporado o seu ensinamento, ele nos deixa. Mas, enquanto
não o fizermos, tende a permanecer conosco, vindo e voltando o tempo todo.

Portanto, não aprender com o sofrimento e com as tormentas da vida é como topar sempre na mesma pedra. 
Aliás, diga-se de passagem, o homem é o único animal capaz de tropeçar duas vezes no mesmo obstáculo. Nenhum outro faz isso.

Nesse sentido, diante de tudo aquilo que nos for adverso e doloroso, habituemo-nos a perguntar calmamente: O que isto quer me ensinar? 
E atentos às respostas que daí possam surgir, aprendamos a transmutar toda e qualquer adversidade, resgatando a sua dimensão intrinsecamente positiva e libertadora. 

Eis o grande desafio da harmonia e da paz: integrar em nós toda a negatividade da vida! 

Desse modo, todos os acontecimentos passam a ser nossos amigos e aliados, uma benção, um instrumento e uma oportunidade para imprimir um sentido mais profundo à nossa existência.

Isso, faz-me lembrar uma prece tibetana que diz: 
"Senhor, faz com que eu receba os sofrimentos apropriados a esse dia, a fim de que o meu coração permaneça desperto."

Nessa mesma linha de pensamento, uma antiga poesia persa aconselhava, dizendo: "Agradeça a quem, por qualquer razão, te maltrata; pois, assim, te faz retornar ao espírito. Porém, preocupa-te com aqueles que te oferecem bem-estar; pois, eles te afastam da prece." 

Nessa perspectiva, convido-lhes a recordar comigo, uma das mais belas e inspiradoras passagens da história de São Francisco de Assis.

Conta-se que, "certa vez, viajavam a pé, Francisco e o Frei Leão, de Perúsia para Santa Maria dos Anjos,  em uma época de rigoroso inverno.
E lá pelas tantas, em meio à conversa que travavam, Frei Leão perguntou-lhe: Pai Francisco, em que consiste a perfeita alegria?

Francisco respondeu-lhe: Imaginemos que, depois dessa longa e difícil viagem que fazemos, quando chegarmos a Santa Maria dos Anjos, completamente molhados e morrendo de frio, cheios de lama e aflitos de fome, e batermos à porta do convento, e o porteiro chegar irritado e perguntar: Quem são vocês? E nós dissermos: Somos dois dos vossos irmãos! E ele disser: É mentira! Vocês são dois vagabundos que andam enganando o mundo e roubando as esmolas dos pobres! Fora daqui! E não nos abrir a porta, deixando-nos expostos ao tempo, à neve e à chuva, com fome e frio; e se, além disso, expulsar-nos a pauladas, agarrar-nos pela roupa e arrastar-nos pela neve... então, se, nesse exato momento,
formos capazes de suportar a injúria e a crueldade de tantos maus tratos, serenamente, sem perturbação e sem murmúrios, nisso consiste a perfeita alegria."

E Francisco concluiu, dizendo: "Acima de todas as graças e de todos os dons de Deus, está o de vencer-se a si mesmo e, voluntariamente, ser capaz de suportar a injustiça, o desprezo, a maldade e o sofrimento humano." 

Portanto, a nossa felicidade não reside no fato de sermos possuidores de muitos dons e talentos, de sermos queridos e admirados por todos, de termos uma reputação impecável e uma invejável influência sobre os demais, ou de podermos viver a nossa vida conforme bem desejamos. Definitivamente, não é assim!

Ao contrário, a verdadeira alegria consiste em sermos capazes de abraçar toda a negatividade da vida - incluindo, sobretudo, os nossos erros e pecados - assumindo-os como algo que nos pertence. E isso, pela simples razão de não podermos nos gloriar dos muitos dons que recebemos, uma vez que eles não são nossos, pertencem a Deus.
Mas, da cruz, da aflição, do sofrimento e das limitações, podemos nos gloriar, sim, porque são nossos, nos pertencem.

Desse modo, fica claro que a verdadeira alegria não se encontra na positividade, por mais excelente e agradável que possa ser para nós. Mas, antes, na negatividade, assumida com consciência, confiança e amor. 

O certo é que, quando somos capazes de interiorizar toda essa carga de negatividade que é própria da vida, nos tornamos verdadeiramente livres. Nada mais no mundo poderá ameaçar-nos! 
Nos possuiremos totalmente! 
Passamos a ser senhores de nós próprios e, com isso, alcançamos, de forma natural, uma instância superior, onde já não poderemos ser atingidos por nenhum mal.

E para que isso aconteça, não precisamos ser santos ou irrepreensíveis; precisamos, apenas, aceitar e reconhecer que não o somos e, ao mesmo tempo, integrar, ao que somos, toda a negatividade que existe em nós, renunciando à tentação habitual de nos defendermos, a qualquer preço, daquilo que trazemos de menos bom e apreciável.

Eis o caminho da harmonia! 
Sigamos por ele!

 

Pe. Raimundo Elias, vigário paroquial de N. Sra. de Fátima - Crato

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